As Palavras da Chuva

Por Nelson de Sá

“Fala Comigo como a Chuva e me Deixe Ouvir”, como outras peças curtas de Tennessee Williams (1911–83), não é especialmente considerada no teatro dos Estados Unidos. São textos menores, “one-act plays”, vistos como esboços para os temas que desenvolveu nos seus clássicos modernos.

Mas por aqui a peça tem ressonância contínua, em pequenos teatros de Rio e São Paulo, com atores iniciantes. Deixou encenações memoráveis, ainda que para pouco público –como aquela que revelou a adolescente Helena Albergaria, dirigida pelo ator Nilton Bicudo há duas décadas.

É o caso também da encenação do ator Leonardo Medeiros, reconhecido no palco, no cinema e na TV, aqui só como diretor, com o jovem elenco do Teatro da Rotina. Em “As Palavras da Chuva”, pode não restar muito das palavras de Williams, propriamente, mas as imagens de água estão lá.

Na pequena sala da rua Augusta, é uma cenografia, como outras recentes no teatro off da cidade, tomada por água, quase uma piscina rasa. O casal de atores passa toda a apresentação nela, remetendo às imagens do original, sobretudo relativas à mulher –a começar do copo.

Remetem a afogamento em algumas passagens, a sexo em outras, à renovação que vem com a chuva etc. Na montagem com direção de arte de Gustavo Von Ha e iluminação de Beto Bruel, dado o uso constante de blecaute, são quase fotografias de corpos, com forte impacto estético.

Mas o texto leva ao extremo a sensação de se tratarem de farrapos de palavras, não propriamente uma peça teatral, o que desperdiça o grande poeta dramático que é Williams. E acaba não permitindo conhecer em sua extensão o potencial dos atores visto no dia, Bia Paganini e Matheus Prestes.

A impressão de ser espetáculo de encenador, não de intérprete, é reforçada pela troca diária do elenco, envolvendo oito atores diferentes. Por outro lado, foi esse desprendimento do Teatro da Rotina que permitiu levantar a peça e até um teatro, com poucos recursos, de “crowdfunding”.

Uma versão desta crítica aparece na edição de 19 de junho de 2015 com o título “Espetáculo causa forte impacto estético”