Relações Aparentes

Por Nelson de Sá

O inglês Alan Ayckbourn é um autor inusitado para o Teatro Gazeta.

Ao longo dos anos, estabeleceu-se que não é palco para complexidade, mas para teatro popular, até popularesco —e foi assim que permitiu, registre-se, ver alguns comediantes históricos, embora pouco reconhecidos, como o pernambucano Carvalhinho (1927-2007).

Ayckbourn é um dramaturgo também popular, mas à sua maneira. Suas farsas e comédias são intrincadas em trama e diálogo, exigem atenção às palavras, e seus conflitos conjugais são no fundo dolorosos, venenosos.

Seja como for, “Relações Aparentes” (Relatively Speaking, 1965) foi aceita até com facilidade junto ao público do Gazeta. Ajuda, para tanto, a encenação explorar além do que o original justifica, por exemplo, em nudez.

Não é uma peça bem encenada, apesar de seus dois diretores. O elenco acaba desperdiçando muito da complexidade farsesca de Ayckbourn, seus malabarismos intermitentes de raciocínio, que exigiriam mais preparo.

Muitas vezes a atriz Vera Fischer e os demais se adiantam, por exemplo, na indicação de que os seus personagens sabem o que está acontecendo —quando não sabem, ninguém sabe.

Por outro lado, há uma tal felicidade nos quatro atores, em sua atitude e fisionomia, que faz com que mesmo os defeitos pontuais, ainda que repetitivos, não atrapalhem o correr da história.

Em “Relações Aparentes”, dois casais se enredam numa teia de mentiras e autoengano que acaba por sobreviver à revelação da aparente verdade.

Os jovens Greg e Ginny estão perto de se casar, mas ela precisa antes se livrar do assédio do ex-chefe e amante Philip, casado com Sheila. Acabam todos na casa do segundo casal, num sem-fim de mal-entendidos e hipocrisia.

Tato Gabus Mendes, que faz Philip, é o ator mais tarimbado em cena e aquele que aproveita melhor o sobe e desce de comicidade que a farsa permite.

Vera Fischer (Sheila), embora sempre carismática, não alcança o mesmo ritmo e talvez exigisse maior orientação, direcionamento mais firme.

Michel Blois (Greg) tem veia cômica mais evidente, mas seu personagem, que quer se casar e desconfia da namorada, é o mais difícil, pela ingenuidade.

Com personagem também irregular, Anna Sophia Folch (Ginny) vira-se bem e é quem traz maior frescor, ajudando “Relações Aparentes” a ganhar um viés de comédia romântica.

Já os cenários mais parecem pastiche de algum teatro popular de décadas atrás, com painel pintado, muro e telhado falsos e outros elementos cheirando a mofo, confirmando que Alan Ayckbourn merecia produção melhor para a montagem brasileira do seu primeiro e até hoje maior sucesso.

Uma versão desta crítica aparece na edição de 13 de junho de 2015 com o título “Felicidade de elenco compensa falhas em ‘Relações Aparentes'”