Algumas anotações sobre o Festival de Curitiba

Por Nelson de Sá

A organização já fez seu balanço de 2015, que reportei aqui.

Fui à segunda semana do 24º Festival de Teatro de Curitiba, assistindo apenas seis das quase 30 e das quase 400 peças nas mostras oficial e Fringe, respectivamente. Mas o que vi e ouvi não deixa dúvida quanto a ter sido uma edição mediana, para não falar logo medíocre.

Foram espetáculos, em sua maioria, de Curitiba para Curitiba, de artistas paranaenses para espectadores paranaenses –o que cresceu ao longo das 24 edições e ajudou a formar seu grande público, mas também restringe o interesse de quem vem de fora. No Fringe, dois terços eram produções locais.

E a mostra oficial amontoou nomes locais revelados ou projetados pelo próprio festival, mas já em produções de São Paulo e Rio –como Os Satyros, com “Pessoas Perfeitas“, e Marcio Abreu, com “Nômades”. Do que conheço do segundo, foi a sua encenação menos satisfatória.

É um apanhado de tiradas sobre teatro e a vida, por atrizes celebrizadas em telenovela. Com um texto de retalhos, reflete o humor ainda predominante nos palcos cariocas, de um besteirol presunçoso. Como em Hollywood, diretores jovens e de risco são contratados para refrescar a indústria sem ameaçar suas bases.

No caso, o pouco que foi possível perceber da mão de Abreu em “Nômades” foi alguma desfaçatez, aliás bem-vinda, no abuso de “covers” de música pop para retratar amizade ou tristeza. Porém em nenhum momento o espetáculo ganhou a profundidade que aparentava buscar.

Na mesma linha, mas no Fringe, o espetáculo “Tchekhov” foi citado pela própria organização como prova de que sobrevive no festival a característica de projetar diretores do Paraná para o Brasil –como o próprio Abreu, Rodolfo García Vásquez, Felipe Hirsch, Paulo de Moraes, Paulo Biscaia.

À maneira da commedia dell’arte, a peça faz uma caricatura detalhada da preparação da lendária remontagem de “A Gaivota” em 1898, pelo Teatro de Arte de Moscou. Não é uma adaptação de Tchékhov e sim um texto original e rico de Ana Rosa Tezza, também a diretora.

Por qualquer razão, esconde a figura de Stanislavski –que não só dirigiu a peça de Tchékhov, mas a protagonizou– e se concentra comicamente no co-diretor Nemirovich-Danchenko. Apesar de alterar diversos fatos, é uma peça bem informada e divertida sobre o teatro e seus bastidores, não se limitando ao russo.

Como “Nômades”, resulta num espetáculo leve demais, que não visa mergulhar nas sombras do autor russo. Tchékhov, como se reafirmou pouco antes antes com “A Gaivota” na abertura da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, não é só engraçado, embora também possa ser.

Existe uma gravidade existencial nos personagens que atravessa aquilo que ele mesmo chamava de farsa. E que, em “Tchékhov”, só aparece quando são reproduzidos trechos de “A Gaivota”. Registre-se, por sinal, que essa montagem já se apresentou no festival e em São Paulo no ano passado, sem deixar marca.

“Nômades” e “Tchékhov” parecem indicar um esgotamento da fórmula paranaense de renovação teatral, servindo de alegoria para o que acontece no próprio festival. Outras duas produções vistas em Curitiba, ambas juntando solos de atores locais, confirmam a impressão.

“Ilíada” é um projeto de vários anos e que deve tomar vários outros até completar a encenação de todos os cantos do poema, numa tradução para português castiço. E “Bifes”, como o nome aponta, tem diversos solilóquios, nascidos aparentemente de improvisação. Ambos exageradamente experimentais, até escolares.