Dois russos

Por Nelson de Sá

Escrevi aqui sobre o espetáculo de abertura da MITsp, “A Gaivota”. Entrevistei também seu diretor, Yuri Butusov, aqui. E no fim de semana vi “Opus Nº 7”, que encerrou a mostra e cujo diretor, Dmitry Krymov, também havia ouvido, aqui.

Apresentaram ambos, em conjunto, um abrangente retrato contemporâneo da encenação russa, a marca desta segunda edição do festival –com montagens, que não pude ver, também de um ucraniano e de uma brasileira inspirada em Tchékhov.

O que “Gaivota” e “Opus” revelam do palco russo, antes de mais nada, antes até da qualidade e das diferenças de seus diretores, foi para mim o domínio do ofício, a múltipla capacidade dos intérpretes, em elencos grandes nas duas produções.

Busque-se a representação realista e psicológica de Stanislavski e ela estará lá, precisa, modelar, bem como o teatro físico de Meyerhold e mais.

Sobretudo, há uma gravidade impactante e persistente nas atuações, que expressam –têm a coragem de fazê-lo– vertigens da existência, sem parada e sem qualquer traço de insegurança. Atores e atrizes, jovens e velhos, expõem-se com a constância de quem não precisa justificar por que o faz; não se mostram “self-conscious”, constrangidos por nada. São ridículos e são magníficos.

O mesmo vale para o risco físico. Em “A Gaivota”, o próprio diretor, em cena como um mestre de cerimônias, arrisca quedas; e um dos atores pode ser descrito como acrobata. Da mesma maneira, em “Opus” uma das atrizes, além da voz belíssima, era também ela acrobata, expondo-se a tombos, o que fosse.

Em “Opus”, eram quase todos cantores qualificados, contrastando e se completando à capacidade não só de interpretar, mas de criar uma cena plástica, de arte.

Dito isso, é flagrante que “Opus” está um degrau abaixo de “Gaivota”, se é que cabe comparação assim, como espetáculo acabado, redondo.

Para começar, cada um de seus atos é uma peça à parte –sendo a primeira, sobre a perseguição aos judeus ao longo da história da Rússia, especialmente tocante. Sincroniza com precisão os elementos de atuação e de memória, registro material histórico, com aqueles mais cenográficos, como um muro ao fundo, e também com a música.

Seu encerramento, com uma explosão de jornal picado, é um final de fato –ou então pedia um segundo ato ainda mais pungente, mais estrondoso. Mas o que sobreveio, após meia hora de intervalo, se arrastou e não foi nem de longe tão envolvente.

Retrata a internalização da opressão por Shostakovich, na Rússia socialista, mas seu registro histórico chega a ser óbvio. Por exemplo, ao apresentar Meyerhold sendo fuzilado, com outros artistas, enquanto ao compositor é negada a morte.

A melhor coisa desse segundo ato de “Opus” está nas curtas gravações públicas com Shostakovich exaltando a revolução e o socialismo e dizendo como sua arte se submete a servi-los, evidenciando uma angústia trágica e suprimida na própria voz.

Entre uma e outra produção russa, não consegui ver os diversos espetáculos de Holanda, Alemanha, Itália. (Estava assistindo profissionalmetne a outro teatro, da sociedade do espetáculo, com as ruas e sua representação.) Mas preciso deixar um último registro.

Em sua segunda edição, a MITsp aprofundou a prática da crítica, digamos, interna. Nada contra, em princípio, como parte da conversa. Mas o espectador receber um texto recém-impresso favorável a um espetáculo, no intervalo do mesmo, é ofensivo.

Direciona o envolvimento emocional, tolhe o distanciamento crítico, constrange, em suma, a liberdade. Diante de uma peça sobre o próprio teatro, “A Gaivota”, e de outra sobre a perseguição a uma cultura e a um artista, “Opus”, soa derrisoriamente autoritário.

É preciso dar o nome às coisas, como nos trechos selecionados e sempre favoráveis de textos, suposta fortuna crítica, em prática mais antiga no teatro do que parece: propaganda.