Stage manager, dia a dia

Por Nelson de Sá

Dias atrás, publiquei reportagem sobre contrarregras, diretores de palco e a ascensão do “stage manager”. Leslie Pierce, que trabalha no Brasil desde “Les Misérables”, autora de “Teatro Musical – Guia Prático de Stage Management” (Giostri, 2013), descreve aqui seu cotidiano no ofício:

“Stage management” é uma equipe. Depende do espetáculo, claro, mas, por exemplo, em “O Homem de La Mancha” somos quatro pessoas, incluindo eu mesma. A gente fica, como chama, no “intercom”. Com vários canais, que abrem a comunicação com as equipes de luz, de som, os canhoneiros, a equipe de piso, os maquinistas, os outros “stage managers”, com a pirotecnia, dependendo do espetáculo. Temos um livro específico com todas as deixas, com absolutamente tudo o que tem que entrar de luz, algumas vezes deixas para o som, tudo o que é subida e descida de telas, entrada e saída de objetos de cena. Temos deixas muito específicas, marcadas pelo diretor artístico, para fazer as coisas acontecerem sempre do mesmo jeito.

Ficamos com vários monitores, câmeras espalhadas por todas as partes do palco e uma frontal, em que a gente fica acompanhando o espetáculo do jeito que a plateia está assistindo. Eu fico na coxia, mandando deixas para todo mundo e acompanhando o ritmo do espetáculo, com a visão de tudo o que está sendo feito.

A gente sempre chega uma hora antes do elenco, para revisar as notas que foram feitas no espetáculo anterior, aquelas coisinhas que acontecem e que precisam de alguma manutenção. Por exemplo, se a espada quebrou ou um figurino precisa de costura. A primeira coisa é revisar essas notas e conversar com as equipes. Aí depende da equipe correspondente à nota, se é luz, se é maquinário, se é musical. A gente vai pondo em ordem e preparando o espetáculo que vai vir, o próximo, naquela tarde ou naquela noite. Depois a gente faz a chegada do elenco. Prepara para que, quando chegar, esteja tudo nos camarins, os figurinos, os microfones, as perucas, absolutamente tudo. E confirma que todo o elenco esteja presente e comece a sua preparação.

Depois faz uma revisão do palco, para que a preparação esteja sendo feita conforme o “preset”, como a gente chama, as coisas que têm que estar no lugar certo, com todas as equipes. Revisamos os materiais também. Por exemplo, agora no “Homem de La Mancha”, a gente tem manutenção de bateria de velas e a limpeza dos espelhos e de todos os objetos. Para que absolutamente tudo esteja 100% de funcionamento e de limpeza e de qualidade.

Logo em seguida a gente faz a abertura das portas da plateia. A gente junta todas as equipes e verifica que todas estejam prontas para abrir as portas. Porque, a partir da abertura, quando o público entra, ninguém pode mais mexer em nada. Já é um espaço sagrado. Já é um espaço para receber, com tudo pronto, artística e tecnicamente. Para o público receber já alguma coisa do espetáculo, se sentir já dentro de um lugar em que alguma coisa especial vai acontecer daqui a pouco. Então a gente cuida muito de todos os detalhes, para que percebam que o espetáculo está sendo feito com cuidado, com limpeza, com qualidade. O “stage manager” pensa muito na qualidade. Coisa de fios, coisa de detalhe mesmo, de pintura. Que tudo esteja lindo. E que tudo seja feito de acordo com as exigências do diretor-artístico, da produção e do diretor técnico.

Vamos mantendo a companhia informada do que vai acontecendo durante a preparação. O aquecimento do elenco, o aquecimento vocal e o corporal, temos um horário determinado para  fazerem isso. E aí a gente fica coordenando com todas as equipes, à disposição para qualquer coisa que esteja fora da nossa rotina. Trabalhamos muito pouco com base no improviso. Sempre ficamos antecipando qualquer questão que possa gerar um erro ou um acidente. Isso faz muito parte da nossa função, como “stage manager”.

A gente manda os sinais, o primeiro, o segundo e o terceiro, em coordenação com as pessoas que ficam encarregadas da plateia, com o som, com todas as equipes. A gente junta todas as pessoas para começar o espetáculo. Verificamos que absolutamente todo mundo esteja pronto, a postos, bem, para começar. Tendo o Ok de absolutamente todo mundo, a gente manda o terceiro sinal. A partir dali, até o final, a gente assume a responsabilidade e o controle do funcionamento do espetáculo. Que a pessoa esteja no lugar certo, no momento certo.