Oito críticas teatrais

Por Nelson de Sá

Um apanhado dos textos publicados nas últimas semanas que não foram ainda repostados aqui no blog:

Sara Sarres e Cleto Baccic emocionam com o “sonho impossível” do musical “O Homem de La Mancha

Em “Palavra de Rainha” , Lu Grimaldi aproxima do público a trajetória de melancolia de Maria, a louca

Com mágica e humor, Gabriel Louchard mostra que teatro de variedades está vivo em “Como É que Pode?

Sem oferecer saídas fáceis, “O Dia em que Sam Morreu” expressa os dilemas éticos no Brasil

Drama realista de Maria Adelaide Amaral acaba por desperdiçar amplitude de atores em “Frida y Diego

Mazzeo se reinventa nas ilusões perdidas de “Sexo, Drogas e Rock’n’Roll” , de Eric Bogosian

Luz Negra” , do Pessoal do Faroste, desvenda uma outra história de São Paulo, com a Frente Negra

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E uma versão um pouco maior da crítica Let’s Just Kiss” celebra o erro e a brincadeira do ator em cena:

“Let’s Just Kiss and Say Goodbye” é uma peça sobre o teatro, em que os cinco atores —entre os melhores dos elencos experimentais de São Paulo— fazem de conta que estão ali se despedindo do palco, com personagens e cenas que gostariam de ter representado, de Hamlet a Marguerite Gautier.

E foi no segundo dia do espetáculo, quando, reza a lenda, tudo pode dar errado. E pelo menos uma coisa teria dado: uma falha nas caixas de som. Pelos relatos posteriores da produção, foi erro de verdade, mas ao ver o espetáculo não estava claro. Propositalmente, nada estava claro.

No início da apresentação, é lido um e-mail que teria acabado de chegar, da diretora Elisa Ohtake, instruindo o público a fazer de conta que era o último momento daqueles atores em cena. Paradoxalmente, a própria diretora surge logo em seguida no palco.

Depois, diante dos problemas que surgiam, não se sabia se eram de verdade, inclusive no caso do som —quando Elisa parou tudo e falou que a peça não prosseguiria. Alguns minutos de intervalo, arrumou-se o som e o espetáculo continuou.

Não poderia haver nada mais teatral, tirado da realidade —se, é claro, aquilo de fato tiver sido realidade.

Nas performances de Elisa, que é filha da atriz Célia Helena —lembrada na peça— e do arquiteto Ruy Ohtake, irmã da também atriz Lígia Cortez e neta da artista plástica Tomie Ohtake, teatro, dança e artes se mesclam no que muitas vezes parece uma brincadeira.

Para que funcionem, como numa criação anterior sua, intitulada “Falso Espetáculo” , é preciso que espectador e ator aceitem o faz-de-conta. Apesar de acontecer num teatro de palco italiano, segregando o elenco da plateia, “Let’s Just Kiss” procura romper a chamada quarta parede, a separação invisível.

Mais que isso, porém, a premissa é que o ator se disponha a brincar com as falas e cenas clássicas selecionadas, algumas longas, outras só de um verso. Que rompa a própria resistência à troca incessante de personagens. Nas palavras de Elisa, que faça tudo o que sempre quis e nunca fez no palco, custe o que custar.

Ninguém fez isso melhor, em meio aos entreveros do segundo dia, que Georgette Fadel.

É intérprete de amplos recursos, como mostrou, por exemplo, na tragédia musical “Gota D’Água”, de Chico Buarque e Paulo Pontes, no papel que havia sido de Bibi Ferreira. Agora, Georgette enfrenta de tudo um pouco, de um animal de peça infantil a papéis clássicos, e em cada um mergulha com a facilidade de uma troca de figurino.

Outros atores vão na mesma direção, mas com êxito mais pontual, caso de Luah Guimarães, por exemplo, ao encontrar a representação física e muito engraçada de uma aranha. Rodrigo Bolsan se sai especialmente bem, em diversas intervenções.

Registre-se que a performance não escapa, muitas vezes, da impressão de ecoar um exercício, alguma improvisação. Sensação reforçada pelos objetos de cena que remetem a brinquedos ou jogos, assim como os figurinos “prét-à-porter” ou de ensaio, além do palco vazio, escancarando as coxias.