“Kaná Kawã” lança pontes entre a floresta e a cidade

Por Nelson de Sá

Não é a primeira peça em que a diretora Cibele Forjaz se embrenha pelos temas indígenas, procurando trazê-los para a cidade grande. Fez o mesmo com “A Refeição”, por exemplo, em que um dos “ensaios dramáticos sobre canibalismo” escritos por Newton Moreno retratava a devoração de um índio por um antropólogo.

O canibalismo serve de alegoria para a própria trajetória da companhia de Forjaz com os mitos da floresta, desde pelo menos “VemVai – O Caminho dos Mortos”, de 2007. O espetáculo “Cia. Livre Canta Kaná Kawã“, aliás, já conta seis anos de desenvolvimento.

Com a direção de arte de Simone Mina, a luz de Alessandra Domingues, a direção vocal de Lucia Gayotto e os atores Lúcia Romano e Edgar Castro, entre outros, o grupo busca desde então aperfeiçoar as pontes entre o mito da tribo amazônica Marubo —gravado e adaptado pelo antropólogo Pedro Cesarino, que viveu lá dois anos— e a capacidade de leitura do público paulistano.

Pode-se concluir que “Kaná Kawã” completou seu caminho e é hoje um espetáculo redondo de “cultura teatral urbana”, como cita Cesarino no programa da peça. Sem abandonar características originais como a repetição ritual obsessiva, é compreendido e vivenciado plenamente.

À maneira do teatro musical dos anos 60, de Opinião e Arena, com preparação que recorreu até à cantora Ná Ozetti, os dois narradores-cantores embalam o público pela história de uma mulher que é raptada pelo raio, iniciando uma busca reveladora do marido, por várias “estações”, até encontrá-la.

Edgar Castro se sai melhor na narração, facilitando a compreensão, e Lúcia Romano surpreende pelo canto, pela voz. A música quase intermitente, ao vivo, é realçada quando o espectador é vendado para só ouvir, longamente. Trata-se de um musical muito bem sintonizado, tecnicamente à altura das franquias da Broadway, embora seja a antítese delas.

Também inventivas são a cenografia e as instalações, com elementos inusitados como a projeção nos corpos –em vez de pintura– ou minúsculas lâmpadas LED que remetem a vagalumes. Pontes preciosas, da floresta para a cidade.

Uma versão desta crítica foi publicada sob o título “‘Kaná Kawã’ embala público à maneira do teatro dos anos 60″. Leia também a crítica de Nando Ramos para uma versão anterior do espetáculo, aqui. Escrevi sobre “A Refeição”, dirigida por Forjaz em Buenos Aires, aqui.