No Rio, o elo perdido que liga o teatro ao movimento modernista

Por Nelson de Sá

Sobre o legado do pesquisador teatral paulista Sebastião Milaré, que morreu na quinta-feira passada, publiquei que são duas obras em especial, voltadas aos encenadores Antunes Filho e Renato Viana (1894-1953).

É quanto ao segundo que ele deixa uma contribuição com potencial para, de fato, ajudar a reescrever a história do teatro. É certo, porém, que outros pesquisadores precisariam escapar dos constrangimentos acadêmicos para avançar pela mesma trilha.

Para dar uma ideia mais clara do que Milaré buscou ao pesquisar o encenador carioca, alguns trechos retirados de “Batalha da Quimera: Renato Viana e o Modernismo Cênico Brasileiro” (Funarte, 2009, 336 págs.):

O movimento modernista brasileiro não foi uniforme. Seu caráter heterogêneo se revelava nas diferentes manifestações regionais. Por isso, ao falar de movimento modernista é imprescindível abrir a visão e deslocar o foco de sobre a Semana de Arte Moderna, que o detonou, mas não o resumiu nem esgotou. Insistentemente negada, a relação do teatro com o modernismo solicita revisões.

Viana não veio a São Paulo, mas no mesmo ano de 1922 estreou no Rio “A Última Encarnação de Fausto” ao lado dos modernistas Ronald de Carvalho e Villa-Lobos _este, reconhecimente, a maior estrela da Semana.

Antes e depois de 1922, são profundos os vínculos de Viana com os modernistas, de libreto para ópera de Villa-Lobos a participação com Cecília Meireles e Murilo Mendes no grupo Festa.

Sobre as características modernistas da encenação de  “Fausto”, Milaré cita dois relatos do criador do Teatro do Estudante:

Paschoal Carlos Magno afirmou que Renato Viana teve a “suprema audácia de traduzir na nossa cena silêncios, valorizando-os com gestos”, e que procurou, “sublinhando o drama de situações e palavras, usar de recursos luminosos e sonoros”; que ousou, para escândalo dos contemporâneos, representar “de costas para o público, tentando esquecer-se deste na procura da verdade na arte”.

Magno afirma que, muito antes de Ziembinski iluminar a cena do “Vestido de Noiva” [de Nelson Rodrigues, em 1943], “já havia entre nós Renato Viana, que tão bem usava a luz com habilidade e coragem”. Refere-se à encenação de 1922, acrescentando que Renato teve a “suprema coragem de nele apresentar música de Villa-Lobos e uma estrutura de espetáculo baseada na iluminação e no som”.

Viana e seus companheiros cariocas não são o único nem o maior elo entre teatro e modernismo. Álvaro Moreyra, Flávio de Carvalho e Oswald de Andrade, também Graça Aranha, Menotti Del Picchia e Mario de Andrade: há toda uma produção voltada à cena.

A maior esperança de luz sobre o período, não só modernista em suas várias vertentes, mas também simbolista, musical, circense, anarquista, é o projeto de João Roberto Faria de um segundo “Ideias Teatrais“, para o século 20.