Shakespeare e os tupis

Por Nelson de Sá

O batizado de William Shakespeare foi há exatamente 450 anos, no dia 26 de abril de 1564. É a única data de que se tem registro. Acredita-se que, como seria costume então, ele tenha sido registrado três dias depois do nascimento.

Nas últimas semanas, publiquei uma série de reportagens a partir dos livros que saíram para marcar a efeméride. Na edição de hoje da Folhinha, abordo adaptações infantis e juvenis publicadas no Brasil, sob o título “Tragédia para criança?“.

Na Ilustríssima, três semanas atrás, sob o título “Batalha nas coxias“, escrevi um texto mais longo sobre as peças colaborativas do dramaturgo, campo que explodiu na última década e inspirou edição especial da Royal Shakespeare Company.

E na quarta, dia 23, suposta data de nascimento, procurei retratar na Ilustrada o elo entre Shakespeare e o Novo Mundo, a partir dos movimentos românticos _e de afirmação nacional_ do século 19, no Brasil e nos Estados Unidos.

Para essa reportagem, ouvi os acadêmicos James Shapiro, de Columbia, que organizou o recém-lançado “Shakespeare in America”, e Stephen Greenblatt, de Harvard, que editou o também recém-lançado “Shakespeare’s Montaigne”.

O segundo livro reproduz e analisa o impacto da tradução do ensaio “Sobre os Canibais” _em que Montaigne relata encontro com três tupinambás do Brasil_ sobre a peça “A Tempestade”, vista como testamento do dramaturgo.

As duas entrevistas foram mais longas do que reproduzi na reportagem. Abaixo, Shapiro comenta um pouco mais do personagem (Caliban) e do cenário (uma ilha remota) que representariam o Novo Mundo, em “A Tempestade”:

“Shakespeare tinha profundo interesse na exploração do Novo Mundo, [do contrário] não podia ter escrito um personagem como Caliban. É claramente versão de ‘canibal’, termo que entra no vocabulário moderno através do trabalho dos exploradores ibéricos no Brasil e em outras partes das Américas. É mais difícil saber se o retrato de Caliban por Shakespeare é simpático ou hostil. Minha sensação é que há uma corrente forte de simpatia, mas não uma resposta satisfatória à reivindicação de Caliban de que a ilha é sua, foi roubada dele por Próspero.”

Para Greenblat, Caliban não tem a nobreza inata dos tupis de Montaigne, mas o dramaturgo projeta nele “poder”, na sensibilidade à natureza, até na bebedeira. Sobre outros sinais do Novo Mundo edênico em Shakespeare, comenta:

“‘A Tempestade’ é, com certeza, o lugar nos trabalhos de Shakespeare em que essas percepções ou projeções são mais impressionantes. Eu acho poderoso e comovente o estranho momento em que Otelo, malvadamente enganado pelo esperto Iago, se compara a si mesmo, em um dos dois primeiros textos [originais que sobreviveram da peça ‘Otelo’], a um ‘índio’ que entregou uma pérola no valor de toda a sua tribo. Nesse momento, eu acho, você sente a consciência culpada do europeu, à luz das terríveis traições e explorações do século 16.”