Pelas frestas, o renascimento de Ney e Didi

Por Nelson de Sá

“Entredentes” tem o seu melhor naquilo que já estava na gênese, nos traços iniciais da montagem, durante o primeiro encontro dos atores com o diretor, há dois anos: a caracterização que Ney Latorraca fez de um menino, exigindo da mãe a compra de um tênis.

A cena não está na peça, mas é nessa capacidade de brincar que a encenação é mais bem-sucedida. Gerald Thomas revolve quase à exaustão o talento do ator para achar graça até onde ela parece inexistir. Sobretudo, consegue dar forma ao duo cômico de Ney e Didi, nomes dos personagens de Latorraca e Edi Botelho.

Um pouco como “funny man” e “straight man”, remetendo às duplas do “music hall”, do cinema mudo e de Samuel Beckett, referência insistente do diretor, mas também à série pós-moderna “Seinfeld”, os dois jogam conversa fora por uma hora e meia _sobre a saúde de Latorraca, o Oriente Médio, qualquer coisa.

Ao longo da peça, até o final, Didi cobra repetidamente que ela não sai do prólogo. Embora seja o que permite desenvolver sua comédia sobre o nada, como se dizia da série, aos poucos o espectador passa a se perguntar também: Quando vai começar? Quando é que vai parar de arranhar a superfície?

Não é só questão de duração, embora “Entredentes” se estenda muito além dos curtas e até dos longas de “O Gordo e o Magro” _ou da meia hora das séries cômicas de televisão. É que Thomas, como autor, não parece mais ter as certezas que já demonstrou um dia.

De todo modo, perto do que se viu em produções recentes em São Paulo, é um renascimento, em parte inspirado pelos talentos cômicos de Latorraca, Botelho e da atriz portuguesa Maria de Lima _cuja personagem, Maria, para insistir no paralelo com “Seinfeld”, parece uma mistura de Elaine e Kramer, ou ainda de Pozzo e Lucky, de “Godot”.

Maria faz, expressamente, a voz do autor-diretor no palco, uma intervenção enriquecedora na rotina da dupla cômica. Mas seus discursos afetadamente geopolíticos, apesar do humor na interpretação, vão da ligeireza à obviedade, com efeito frustrante.

A cena ainda é muito bem emoldurada por Thomas, na trilha musical quase intermitente e principalmente na cenografia: uma vagina gigante que remete ao renascimento de Latorraca, depois de uma crise de saúde, e também às rachaduras nos muros políticos e religiosos, por onde escapa a vida.

Uma versão desta crítica foi publicada na edição de hoje, à pág. E4, sob o título “Com Latorraca, Gerald Thomas faz sua comédia sobre o nada”. Veja também reportagens em texto e vídeo e mais fotos de Lenise.

PS – O diretor de “Entredentes” postou uma resposta à crítica publicada hoje.