José Wilker e o teatro

Por Nelson de Sá

Zé Celso conta que conheceu José Wilker logo que este chegou ao Rio de Janeiro, do Recife, quando mal tinha onde morar, “mas a classe teatral era muito unida” e o abrigou. Vinha do Movimento de Cultura Popular de Pernambuco, “que apaixonou o Brasil, baseado nas Ligas Camponesas”. Pouco se falou, nos necrológios, daqueles primeiros passos no palco.

Ele atuou no Teatro de Cultura Popular até 1964, quando o movimento foi fechado pelo golpe e ele foi para o Rio. “Mesmo jovem, já tinha esse talento, foi logo escalado para papéis principais”, lembra a colega de TCP Moema Cavalcanti, no recifense “Jornal do Commercio”, em relato mais extenso sobre aquele período. Em 64, foi premiado como revelação de ator na cidade.

Já no Rio, fim dos anos 60, início dos 70, atuou pontualmente no Opinião e no Oficina e se projetou no Teatro Ipanema, nas grandes peças de José Vicente, “O Assalto”, “Hoje É Dia de Rock”, “Ensaio Selvagem”, e principalmente em “O Arquiteto e o Imperador da Assíria”, de Fernando Arrabal _a interpretação de que todos lembram mais, a começar de Barbara Heliodora, 90.

A partir daí, priorizou cinema e TV, com visitas ocasionais ao teatro. Estas foram o pouco que vi de Wilker, distantes de seu melhor momento no palco: algumas direções mais ambiciosas de autores contemporâneos estrangeiros, depois algumas dolorosas concessões de direção ao público de TV _e uma atuação final que, esta sim, remetia ao grande ator de que falavam.

As direções ainda arriscadas, que não apreciei por certo maneirismo que identificava então, foram de “Perversidade Sexual em Chicago“, de David Mamet, e “A Morte e a Donzela“, de Ariel Dorfman. As direções de concessão foram “Algemas do Ódio“, paródia da gravação de uma novela, e “Socorro! Mamãe Foi Embora“, com diálogos de novela de Benedito Ruy Barbosa.

A atuação é mais recente, de 2008, quando assumiu um papel que outros atores globais recusaram seguidamente, por temor de se marcarem pelo personagem, um homem que se apaixona por um animal na peça de Edward Albee, “A Cabra: ou Quem É Sylvia?“. Aos poucos, dirigido por Jô Soares, Wilker se deixava tomar pela humanidade até não restar humor em Martin, só compaixão.

Como escrevi aqui mesmo no blog: “O momento de maior envolvimento, do ator com seu papel e do espectador com o espetáculo, surge quando ele expressa quase sem projetar a voz, em meio à grita em torno dele, que ele sabe estar sozinho”.