Jesus Cristo Superstar vs. Elis, a Musical

Por Nelson de Sá

“Elis, a Musical” repete o defeito costumeiro dos musicais biográficos no Brasil, que é acompanhar e cultuar a vida de alguém como se tivesse drama. Sem seguir ditames mínimos de dramaturgia, fica chato. O resultado é um folhetim, uma novela, sem conflito e fim mais claros, carregado de melodramas familiares.

Não precisaria ser assim, como provou Plínio Marcos com Noel Rosa, em “Poeta da Vila e seus Amores”, mais de três décadas atrás, e até Rodrigo Pitta com “Cazas de Cazuza”, no início da leva atual do gênero, em 2000.

E na verdade Elis Regina carregava elementos trágicos em sua vida que bem poderiam resultar, de fato, em teatro. Um deles não é sequer tocado —a sua morte, a maneira como aconteceu. Outro é sua aproximação com a ditadura, que está presente no espetáculo, mas amenizada, repassada a outros, como o produtor Marcos Lázaro e o então marido, Ronaldo Bôscoli.

Atenuar conflito é algo que vai contra o teatro, obviamente, e enfraquece a Elis da peça. Mas se trata de um folhetim, em que personagens só têm um lado, ou é mocinho ou é bandido.

Não há no texto de Nelson Motta e Patrícia Andrade uma narrativa, propriamente: é quase uma revista, um retalho de adaptações de entrevistas de TV etc. Os quadros musicais são também limitados em coreografia, figurinos. A cenografia não alcança um mínimo de unidade. Dennis Carvalho, diretor de novelas, faz o que conhece.

E há referências demais a celebridades de TV. Imitações demais, remetendo a programas humorísticos, por exemplo, com paródias gratuitas de Marília Gabriela e de Paulo Francis, ambos com pouco ou nenhum vínculo com a personagem-título.

A imitação avança para a própria Elis. O melhor do espetáculo acaba sendo a capacidade de Laila Garin para mimetizar voz e trejeitos da cantora, cultuada por uma geração  –que estava no teatro, no último sábado: é público de show, que quer assistir à versão cover do ídolo, em autoengano de várias horas.

É outra particularidade dos musicais biográficos da leva recente no país: são rituais de ressurreição de celebridade.

Além das passagens de adoração de Elis, há um grande _e fortuito_ quadro com Danilo Timm, em que Alonso Torres mostra afinal por que é um dos grandes coreógrafos do gênero, hoje. Lennie Dale, fundador do Dzi Croquettes e suposto criador do “Eliscóptero”, os célebres movimentos de braço da cantora, é homenageado em alguns minutos do melhor teatro musical.

Em contraposição, “Jesus Cristo Superstar” é muito bem trabalhado, com maior apuro não só técnico, mas criativo.

O segundo ato é uma aula de teatro musical do diretor Jorge Takla, começando pelo quadro “Getsêmani”, em que Igor Rickli mostra por que foi selecionado para o papel-título. Wellington Nogueira, referência de comédia musical em São Paulo, faz Herodes, praticamente sua única participação, que resulta num número fundamental de alívio cômico, durante a apresentação dramática em tudo mais.

Mas a grande interpretação é de Alírio Netto, no papel de Judas Iscariotes, que rouba a cena, como Iago em “Otelo”. É o mal com que o espectador se identifica, até porque não é perfeito, tem questionamentos e ciúme, ao contrário de Cristo. Com a voz rasgada, de rock pesado, parece estar sempre no limite não só de estourar a garganta, mas de destruir a verossimilhança.

Nos dois atos, são dele as cenas mais envolventes, mesmo quando divididas com outros _embora Beto Sargentelli e Fred Silveira, como Simão e Pilatos, tenham também bons momentos, até por se tratar de musical típico da Broadway, de Andrew Lloyd Weber e Tim Rice, em que vários intérpretes têm sua chance de brilhar.

Seu confronto central, que vem do original e a encenação reforça nas interpretações, é com Maria Madalena: contra a atuação sempre no limite de Netto, Negra Li introduz uma representação delicada, de voz suave, melódica, também de grande sensualidade, mas feminina, leve, cativante.

É o outro personagem forte da peça. Ao redor de Jesus, que funciona mais como “straight man”, como esteio da narrativa, são eles dois os protagonistas.

O final ancorado na canção “standard” da peça e de Judas, “Superstar”, é visualmente exuberante em coreografia, cenário e figurino, em iluminação até. Mas sente-se falta de construção maior e mais ordenada, ao longo da adaptação, para transformar Jesus em “superstar”, em produto, sua crítica original _Cristo como celebridade pop, industrial.

Foi uma característica dos musicais do mesmo período, anos 60/70, como a ópera-rock “Tommy”, da banda The Who, e o brasileiro “Roda Viva”, de Chico Buarque. Com “superstar” no título, isso precisaria estar mais presente, até para facilitar a compreensão dos personagens de Jesus e Judas, que acabam se abatendo e se revoltando, respectivamente, sem motivação clara.

De qualquer maneira, erguido como uma Paixão de Cristo para a sociedade do espetáculo, “Jesus Cristo Superstar” mais cultua do que critica seu personagem-título. Celebra a fé e até parte dos ensinamentos dos Evangelhos –e não fazia o menor sentido, portanto, o protesto de seguidores de Plínio Corrêa de Oliveira na entrada do teatro, na estreia de sexta, com estandartes pseudomedievais e dizeres contra o “sacrilégio”.

O também co-produtor Jorge Takla, que ajudou a Time for Fun a se estabelecer como maior produtora de musicais no Brasil, abre o novo teatro da empresa _o antigo Geo, bem menor que o Renault e situado no bairro de Pinheiros_ com o que parece ser uma nova vertente, de mais risco e invenção.

No novo espetáculo, podem ser identificados ecos até do teatro mais experimental, de Andrei Serban a Bob Wilson, com quem o diretor trabalhou na Nova York dos anos 70. Longe da Broadway.

Uma versão desta crítica foi publicada na edição de ontem, à pág. E3