Com a Mostra Internacional de Teatro, uma nova visitação do Santo Ofício

Por Nelson de Sá

Para um festival que se pretende não comercial, a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo começou com muita publicidade, literalmente, no sábado.

Como no Festival de Teatro de Curitiba, obviamente o parâmetro negativo adotado informalmente pela mostra paulista, um comercial do Itaú precedeu o espetáculo da noite, em vídeo gigante.

Na verdade, o próprio Auditório Ibirapuera foi terceirizado para o Itaú, em alguma administração municipal do passado.

E estavam lá não só o representante do maior banco privado do país, mas o Sesc, o Ministério da Cultura e as secretarias estadual e municipal. Faltou a Telefónica.

Os patrocinadores falaram longamente, festejando eles mesmos, o teatro e Ruth Escobar, esta adotada como suposto parâmetro do evento, por seus festivais na cidade.

Terminados os discursos, quase todos os patrocinadores saíram às pressas, antes que começasse o espetáculo.

Foram, muito provavelmente, alertados que não era uma encenação que devessem ver, em pleno sábado à noite, talvez antes de algum jantar ou evento social.

Não é difícil compreender o que o curador Antonio Araújo viu em “Sobre o Conceito de Rosto no Filho de Deus”, além do carimbo dado por festivais europeus como Avignon.

O encenador Romeo Castellucci se quer artaudiano na linhagem de certas peças do Teatro da Vertigem de Araújo ou dos Satyros, em que o carnal ganha tintas de inquisitorial.

O mesmo vale, como já escrevi no jornal, para a outra atração do evento, a espanhola Angélica Liddell, que verte o próprio sangue em cena.

Como Liddell, “Filho de Deus” é mais performance que teatro, assim como Castellucci é mais artista plástico que encenador.

A quase totalidade da apresentação de uma hora, que parece esticada para chegar a tanto, é gasta com um filho que limpa o pai, que faz nas calças _episódio cotidiano, natural, que o espetáculo tenta fazer trágico.

A cena poderia durar três minutos ou o dia inteiro. E dá lugar no final a crianças que jogam granadas contra uma imagem gigante de Cristo, que por fim chora cocô.

Como escreveu Michael Billington, o espectador pode deduzir daí o que bem quiser. A única certeza é que a peça afeta uma grandeza metafísica que não faz por merecer.

É uma encenação auto-indulgente, aliás muito inferior à “trilogia bíblica” do próprio Antonio Araújo.

Formalmente, é posterior e também inferior ao teatro de Robert Wilson, que Ruth Escobar apresentou aos paulistanos distantes quatro décadas atrás.

Com o piquenique no Gólgota do hispano-argentino Rodrigo García, além de Lidell, “Filho de Deus” acabando dando à mostra ares de um festival obsessivamente cristão, mineiro como seus idealizadores.

PS – Castellucci estava há quatro meses no Porto Alegre Em Cena, com o mesmo espetáculo. Para o festival paulistano, tão em seguida, preferiu não vir.

Já Liddell se apresentou na Mostra Sesc há três anos, em São Paulo, para pouco público e repercussão menor ainda.

O que faz os espetáculos terem tanta procura, causarem tanto burburinho, agora? Publicidade, muita publicidade, que não se faz só com anúncios do Itaú.