O melhor da comédia, do improviso aos esquetes

Por Nelson de Sá

“Z.É. – Zenas Emprovisadas” está fazendo dez anos, alertou Gregorio Duvivier dias atrás.

Geralmente, quando se pensa na explosão de humor da última década, a primeira manifestação de que se recorda é o Terça Insana, espetáculo de monólogos cômicos popularizado por Grace Gianoukas em Pinheiros, que foi logo seguido pela comédia stand up de Marcelo Mansfield, Rafinha Bastos e Danilo Gentili, também por ali, nos bares de Pinheiros.

Mas um terceiro elemento, além dos monólogos e esquetes “insanos” e do stand up, ganhava corpo naquele momento, longe dali. “Zenas” é um espetáculo de improvisação criado por três colegas de Tablado, a escola de teatro da lagoa Rodrigo de Freitas, Zona Sul do Rio, Duvivier, Fernando Caruso e Rafael Queiroga, mais um agregado, Marcelo Adnet.

A única apresentação de “Uma Noite na Lua” programada para o Itaú Cultural, na semana passada, com Duvivier, permitiu relembrar um pouco do impacto que foi ver “Zenas” há seis anos, em São Paulo.

Escrita e dirigida por João Falcão, “Noite” não é uma peça solo das mais estimulantes. (Desde “A Máquina”, o teatro de Falcão parece trazer a marca de outros pernambucanos de mesma geração, como Guel Arraes ou Antonio Nóbrega, em que a precisão técnica é sempre elogiável, mas o resultado artístico é quase sempre brando, ameno, de baixo impacto.)

Mas Duvivier estava em cena, com a empatia de antes e também o humor tão leve _e tão diferente de uma Grace ou um Rafinha. Pela ironia mais infantil e musical, lúdica e lírica, Duvivier diz se identificar com Eric Idle, do Monty Python. Mas talvez o modelo mais próximo fosse uma mistura de Harpo, pelo humor, com Chico Marx, pela música.

E a empatia, a conquista quase automática da plateia _que foram duas, porque o Itaú Cultural precisou abrir sessão extra_ remete a “Zenas”. Este foi um espetáculo de risco. Ainda está de pé, andando pelo país, e seria bom se pudesse voltar agora a São Paulo, até para confirmar o impacto daquela apresentação de 2008 no HSBC Brasil.

O humor que aqueles incríveis improvisadores mostram hoje se voltou aos esquetes, formato mais tradicional e popular junto aos grandes públicos de internet e televisão, mas sobrevive neles o evidente prazer em apostar na situação de perigo, no rompimento do gosto comum. É a sensação que deixam, quando vistos hoje em outras plataformas.

Sobre os três gêneros de uma década atrás, vale lembrar que não começaram então no Brasil. Vêm de longe, estão por toda a história do teatro, na verdade. E a própria Grace, matriarca da geração, deu seus primeiros passos no Espaço Off ainda nos anos 80, quando podia até ser identificada com o besteirol de Miguel Magno ou, no Rio, Pedro Cardoso.

Como Magno, Cardoso ou Felipe Pinheiro, como Luiz Fernando Guimarães ou Regina Casé, o gênero no fundo é o que menos importa.

Sobre “Zenas”, escrevi quando veio a São Paulo, aqui.