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Nelson de Sá e Lenise Pinheiro abordam montagens de peças, ensaios, vivências e experimentos

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De Chico Buarque e Ferreira Gullar para Augusto Boal

Por Nelson de Sá

No fim de semana, publiquei reportagem sobre a reedição das principais obras de Augusto Boal pela Cosac Naify e, mais importante, com uma prévia do que poderá ser editado a partir do acervo do diretor e teórico, na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A seguir, a carta que Chico Buarque enviou junto com uma gravação do que seria a canção “Meu Caro Amigo” para Boal, então no exílio em Portugal, início dos anos 70:

Boal, oi

Tenho vários motivos para não ter escrito antes. O principal e mais sincero é que sou um preguiçoso. Preguiça de escrever cartas porque, no resto, tenho trabalhado paca.

O segundo motivo é que minha ida à Itália está no vai-não-vai há alguns meses. Continuo sem saber. De qualquer forma, se eu passar em Lisboa não será para cantar. O programa do Solnado parece que seria só uma entrevista. Já abandonei a carreira de showman: saco no pé e nervos à flor da pele. O MPB-4 é que tem feito uns contatos para aparecer aí e cantar. Eu, se fizer uma exceção, será em Roma, numa apresentação sem maiores compromissos, músicas antigas. É a única maneira de pagar minha viagem com Marieta. Se assim for, posso dar uma esticadinha por aí, mas só para olhar e curtir.

O terceiro motivo é que estou gravando um disco. “Mulheres de Atenas”, enfim liberada, é das faixas mais fortes. A gravação que te mando está incompleta, faltam coro, cordas e alguma percussão. A outra música que te mando é um chorinho do Francis Hime com letra minha. Fiz pra você. A gravação é precária, Francis e eu às 4h da manhã, alegres demais. Por incrível que pareça, passou na censura. Fiz umas mutretas na letra que mandei, eles não entenderam nada e aprovaram. Quando sair o disco, vão ficar puto dentro das calças. Por isso, enquanto não sai o disco, esse chorinho é ultraconfidencial. Só pra vocês.

Bem, o mesmo que fiz com “Mulheres de Atenas” tenho tentado fazer com as outras músicas. É que não tenho músicas suficientes para completar o disco e estive tentando unir meu trabalho para “Lira” com o repertório do disco. A primeira música, por exemplo, estive tentando tratá-la de maneira que funcione independentemente da peça. Não ficou pronta ainda, mas já tem título (“Guerra Conjugal”) e um final (“até que a morte os una”). A solução é boa pra mim, claro, mas também acho legal que o teu nome fique em evidência, também ligado à música. Além de te render uma graninha. Mas, olha, na hora que você estiver precisando das músicas para montar “Lira”, não tem problema. Eu concluo rapidamente dentro daquele esquema que te falei: músicas simples, que sirvam só no contexto da peça. Mas se você puder esperar um pouco mais eu acho bem melhor.

A Nelma do “Pasquim” já se ofereceu para lhe enviar um cassete.

Tá. Vou levar a encomenda à casa de tua irmã.

Abraços fortes.
Chico

Agora, de Ferreira Gullar, também no exílio, comentando no final a canção, que saiu no disco “Meus Caros Amigos”, lançado em 1976:

Buenos Aires, 23 fev 1977

meu caro Boal:

te escrevo este bilhete rápido para informar que volto para o Brasil dia 10 de março. O esquema nas altas esferas tentado pelos amigos no Brasil furou, como eu previa. Volto por minha conta, com carteira de identidade e sem lenço (branco). Fica atento para o noticiário, embora eu creia que não vai acontecer nada de mais. No entanto, caso aconteça, gostaria que vocês aí se mexessem. Avisa os amigos com quem tenhas contato aí e adjacências europeias. Espero que tudo dê certo e que tu também em breve possas voltar. Mando um abraço afetuoso para Cecília e outro para os garotos. E ainda outro para ti.

Gullar

Todo mundo aqui gostou muito do disco do Chico, de tua canção e da que ele fez para ti e a Cecília. Alci, Flora e demais amigos mandam abraços. Laura também. Ciao!

Letra de “Meu Caro Amigo“, de Chico Buarque e Francis Hime:

Meu caro amigo me perdoe, por favor
Se eu não lhe faço uma visita
Mas como agora apareceu um portador
Mando notícias nessa fita

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Muita mutreta pra levar a situação
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
E a gente vai tomando que, também, sem a cachaça
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu não pretendo provocar
Nem atiçar suas saudades
Mas acontece que não posso me furtar
A lhe contar as novidades

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

É pirueta pra cavar o ganha-pão
Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro
E a gente vai fumando que, também, sem um cigarro
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu quis até telefonar
Mas a tarifa não tem graça
Eu ando aflito pra fazer você ficar
A par de tudo que se passa

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Muita careta pra engolir a transação
E a gente tá engolindo cada sapo no caminho
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu bem queria lhe escrever
Mas o correio andou arisco
Se me permitem vou tentar lhe remeter
Notícias frescas nesse disco

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

A Marieta manda um beijo para os seus
Um beijo na família, na Cecília e nas crianças
O Francis aproveita pra também mandar lembranças
A todo o pessoal
Adeus

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