Leilah Assumpção, resiliente

Por Nelson de Sá

Na edição de hoje, publico um breve perfil da autora de “Fala Baixo, Senão Eu Grito” (1969) e “Intimidade Indecente” (2001), ambas publicadas na coletânea “Onze Peças de Leilah Assumpção” (Casa da Palavra, 2010). A seguir, o depoimento da dramaturga, que começou com uma carta que ela enviou há um mês, em que falava mais da filha, também dramaturga, Camila Appel, sobre quem eu havia escrito aqui. Da carta:

Consegui escrever uma peça (do jeito que deu, claro) sobre a deformação do meu rosto (você ficou sabendo, né?). Ficou razoável (o rosto). Dá para sair e pôr batom. A peça ficou um “terremoto – resiliente – com violino ao fundo”.

O depoimento, editado a partir de dois telefonemas e uma longa conversa em sua casa, nos Jardins, da qual também participou Lenise Pinheiro:

É a primeira foto que eu deixo, depois de tudo que aconteceu. Eu falei, “não, agora vou mostrar a cara do jeito que ficou”. Não deu para ficar melhor [ri] mas também estou com 71 anos. Não há necessidade de “oh, coitada, olha só”. Eu me maquiei. É a primeira vez que me maquio. Porque agora, quando saio, maquio os cílios só e passo batom, o que já é muito. [ri] Como fui manequim, sempre dominei meus ângulos. Sempre fui muito fotogênica, porque tirava no ângulo. E agora me aconteceu isso, uma série de coisas, e fiquei sem ângulo nenhum. Não tenho ideia.

Eu vou contar [o que aconteceu]. Tive uma infecção no rosto e ia ficar cega, então tive que escolher. Era aqui [nos olhos, de lado a lado]. Está na peça, o pior momento é o da escolha. Isso doeu muito e foi grave. Eu me lembrei muito da mãe que escolhe qual filho seria levado para ser morto, na Alemanha. Meryl Streep, “A Escolha de Sofia”, o filho ou a filha. Essa coisa da decisão é terrível, principalmente quando você está sozinho. A minha escolha era ficar cega ou pôr titânio, esse tipo de coisa. O efeito seria muito grande. Eu falei, “escolho fazer”. Na hora em que falei “escolho”… [suspiro de alívio] Depois disso ainda tive infecção de herpes dentro do cérebro. Foi muito grave. Não doeu nada, mas eu fiquei fora de mim.

É uma comédia, saiu um humor negro. [ri] Primeiro ela se chamou “Conforto à Beira do Abismo”, mas aí veio outra com “abismo” [no título]. Aí ia se chamar “Estou Louca para Entrar na Idade do Foda-se”. Isso tem tudo na peça. Mas a Cristina Sato, que é minha produtora, falou, “Leilah, tem lugar que vai sair três pontinhos, não tem graça, e para arrumar patrocínio… eles não dão”. Então ficou “Dias de Felicidade”, porque é uma ironia. Depois que escolhi, fui para a operação e me deram morfina para dormir e durou dez horas. A partir daí, eu juro por Deus… [fisionomia de dor]

Pus na peça porque resolvi botar para fora não só por mim, mas para servir de exemplo. Mas não é “oh, como sou forte”. Acho que o negócio é humildade mesmo: a vida é a vida, vem coisa boa, vem coisa ruim. Desde que não doa fisicamente, porque aí é foda… Agora dizem que a gente vai viver até cem anos. Por isso todo dia eu ponho coisa nova na peça. Eu vou perguntar, “até cem anos é obrigatório?”. É obrigatório viver até os cem anos, se não resolveu o problema da dor no velho?

Claro, a minha geração vai reinventar a velhice, como já reinventou uma série de coisas. Bom, eu reinventei tudo. Porque não tinha modelo de mãe e agora não tenho modelo de avó, ai! [ri] Ou modelo de casamento. O modelo que tenho de casamento foi muito dramático. Quando essa aí [Camila, a filha] falou que ia se casar não foi fácil para mim. Agora vai ter filho. Estou muito feliz, mas estou preocupada. Para mim foi uma grande alegria, mas foi barra, porque a mulher para de viver, né? Não adianta. E a gente, que é criadora… A coisa que mais me incomodou foi que o filho tomou conta da minha cabeça e da minha imaginação. Fiquei sem liberdade de imaginar.

Faço terapia com homem e com mulher, para comparar. [ri] Eu falei, “olha, vou fazer enquanto ainda posso, a gente nunca sabe, essa vida do jeito que está, daqui a pouco você está no SUS”. Como trabalho com o ser humano, eu sou responsável. Porque a gente sabe, a gente que escreve teatro, como ele mexe com as pessoas. O teatro atinge por desdobramento. A televisão achata e tem aqueles limites. Agora, o teatro é por desdobramento, então tem que ser responsável. Não careta, não moralista, mas responsável. Eu sou responsável dentro de limites, porque a gente também quer virar o barraco. [ri] Quer os dois.

Mas eu estava no ponto de que vamos ter que reinventar a velhice. Alguém me falou de um livro, “A Nova Velhice” [Ambar, 2006]. É de gente da USP, então é técnico, mas simpático, dá para ler. É mais em termos sociais: quantos velhos, quanto custam para o Estado etc. e tal. Aí chegou [o capítulo sobre] a contracultura e a velhice. Falei, “oba, é agora”. [ri] Sabe o que escreveram? “Esse pessoal da contracultura está entrando agora na velhice. Vamos ver o que têm para dizer.” Eu não sou Caetano [Veloso], mas faço parte. Fui hippie em Londres, morei dois anos lá. São Paulo não teve hippie, mas o Rio teve. Serginho Mamberti era o único hippie [ri] e a casa vivia cheia.

O velho tem o direito, se ele quiser e puder, de não fazer nada. É muito difícil não fazer nada. O médico fala, “vá para casa e não faça nada, descanse, leia um livro”. Eu consigo. Esse tempo todo fiquei deitada, olhando para cima. Achava que não estava pensando nada, mas um cara falou que o meu corpo estava inteirinho em sintonia. Agora, inconscientemente, sei lá o que acontece. Mas acho que o velho tem direito de não fazer nada. Aquela obrigação de estar fazendo… Liguei para uma conhecida da minha idade e ela falou, “levantei, fui ao shopping…”. Sabe o desespero de provar que fez? “E você?” “Nada.” Ela ficou perplexa, porque eu não paro de escrever.

Eu morei junto 20 anos. Não queria abrir muita coisa mas sou obrigada, inclusive para ajudar outros. Eu tive síndrome de pânico e tomei antidepressivo, tomo até hoje. Mexeu com minha libido, e com a dele, não. Vou obrigá-lo a ficar aqui? Mas o companheirismo continua. E ele não se casou, não foi morar com ninguém. Comprou apartamento, ficou bem de vida. E ficou comigo o tempo inteiro. O personagem [da nova peça] é inspirado, não é ele. Mas eu vou contar só uma coisinha que ele falou e que eu pus na peça. “Que bom que você vai fazer terapia com homem.” “Por quê?” “Porque aí ele vai me entender?” [ri] Aí eu pedi licença e pus na peça.

Não se pode confundir resiliência com superação. Quando uma terapeuta falou que eu era resiliente, [era] pegar a dor e transformar numa coisa boa. Ela me deu o exemplo do Chaplin, do Ford, o dos carros. Entrou na moda agora. Vi a Eliana falando que ela é resiliente. E a filha do Silvio Santos falou que a família é toda resiliente. E é, o Silvio Santos é um resiliente mesmo. Mas a palavra vem do aço. Você funde, ele muda e depois tem a capacidade de voltar ao estado. Ela vem da física, mas não é só isso. É coisa que transforma. Claro, uso [na peça].

Eu era manequim de alta costura, manequim do Dener! [E antes] era atriz. Péssima! Não era boa mesmo. O Antunes [Filho, seu diretor em “Vereda da Salvação”, de 1964] falou, “nossa, que força, que coragem essa menina, vai conseguir o que quiser”. Mas no último dia de ensaio veio o [dramaturgo] Jorge Andrade. Eu tinha uma fala, “Eu vou hoje para o céu e estou assim tão suja”. Você acredita que o Jorge Andrade tirou a fala de mim? A fala era uma glória, e ele deu para uma mulher que era artista de circo. Hoje sou autora e entendo. Era a fala final. E eu sei lá como falava, não tinha nem 20 anos.

[Depois] eu estudei lá no Kusnet, no Teatro Oficina. Eu era apaixonada por eles todos. Comecei a frequentar e ficava na coxia. Tenho a formação da coxia do Oficina. A primeira vez em que escutei “comeu”, “porra”, foi a Liana [Duval] na coxia, só depois fui ver Plínio Marcos. E ela queria comer o Frei Betto [assistente de direção de “O Rei da Vela”]. Nem sei se comeu ou não. Não soube, historicamente. [ri] Desde “Pequenos Burgueses”, vi todas as peças. Sou fã do Oficina, esteja cada um onde estiver.

Zé Celso é um gênio, eu acho. A gente teve uma historinha, mas ele era muito sério. Era seríssimo, tímido. Eu era virgem ainda, naquela época, e ele eu não sei. [ri] Quando fui manequim, eu saía da passarela, entrava lá e sentava no colo dele. Lembro um dia em que ele foi perguntando “o que achou” [de um ensaio]. Cada uma foi citando, citando… “E você, Leilah?” “Ah, eu achei tão chato.” Ele riu tanto… E falou, “Etty [Fraser], então quando acontecer isso você fala, ‘vai tomar no cu’.” Pronto, resolveu, não ficou mais chato. Zé Celso dá valor à cultura, mas principalmente à contracultura. Mas hoje, para mim, é muito comprido. Não tenho idade para ficar sentada lá [horas].

O palavrão, para mim, não é gratuito. Usado pela mulher, na hora certa, é uma arma. Vou dar um exemplo, que não é meu, mas pus na peça. O amigo de uma conhecida falou, morrendo de vergonha: “Não mexo com mulher nunca mais. Eu ia passando por uma rua, tinha um carro chiquérrimo, com uma gata bem vestida, linda. Era uma burguesa. Abaixei a cabeça e fiz, ‘ah, que tesão que você me dá’.” É gostoso ser homenageada, mas assim é muito vulgar. “Ela virou para mim, ‘enfia o dedo no cu que passa’.” [ri] É uma arma. O moço falou que nunca mais mexe com ninguém. Foi a arma dela, porque ele foi cafajeste. Ela não tinha um revólver.

“Dias de Felicidade” estreia no primeiro trimestre do ano que vem, em São Paulo, com direção de Regina Galdino e produção de Cristina Sato. “A peça está pronta, mas falta tudo, teatro, patrocínio”, diz Leilah. Um trecho, com seus dois personagens:

Luzinho: E daí na velhice tem que provar para os outros que você está VIVO! Vê se pode!!!!!!

Luzinha: Chega! Chega!

Luzinho: Vamos combinar uma coisa? Não vamos provar mais nada!

Luzinha: Não vamos provar mais nada! Os outros que se fodam!

Luzinho: Isso! Que se danem! Esse é o verdadeiro poder!

Luzinha: Crescei e multiplicai-vos!

Luzinho: Vai ver já multiplicou demais. Como diz sua irmã muito religiosa…  (pausa)

Luzinha: “ESTOU LOUCA PARA ENTRAR NA IDADE DO FODA-SE.”  (pausa)

Luzinho: Os funcionários?

Luzinha: Sempre se revezando. Muito meiguinhos, e a gente se diverte muito. Outro dia vieram me tirar sangue e eu tenho horror, porque a minha veia some, e então eu disse para uma delas: “Você está em horário de trabalho. Pode ir estendendo o braço aí e tirar sangue no meu lugar”.


Sobre Leilah e sua geração, ouvi Consuelo de Castro, sua melhor amiga, também dramaturga, autora de “À Flor da Pele” (1969):

Eu li a peça, é muito bonita. É impressionante como a Leilah conseguiu transformar a dor dessa experiência em arte e boa arte, arte compassiva, arte generosa. Vai fazer muito bem para muitas pessoas. É um texto luminoso, bem escrito, sem nenhuma autopiedade, com aquela ironia que a Leilah sempre teve. A Leilah é uma autora lúcida, brilhante, que tem um texto único e reconhecível a léguas de distância. A filha dela também já nasceu com talento, [ri] eu não sabia que essas coisas eram transmitidas pelos genes.

“Fala Baixo, Senão Eu Grito” foi um marco no teatro brasileiro. De qualidade, de cânone dramatúrgico: a partir daí não se podia fazer nada aquém, como cânone de estrutura, de carpintaria, de ritmo, intensidade cênica, diálogo. Ela conseguiu a perfeição, a meu ver. E ela fez isso numa época em que a personagem principal contestava toda uma coisa _que não era só feminista, de jeito nenhum_ toda uma repressão violenta. Era o estado em que o país vivia. O Brasil estava amordaçado, preso, e ela fez um ato de liberdade. Apesar de não ser claramente um ato de ofício político, a peça era um ato de libertação, uma catarse. As pessoas aplaudiam gritando, você não tem noção do que era a explosão de alívio de ver aquela peça.

Nós somos a chamada geração “angry young men”. Quem nos chamou assim, se não me engano, foi o [crítico e diretor italiano] Alberto D’Aversa. Eu, Leilah, Isabel Câmara, o Antonio Bivar, o Mario Prata,  o José Vicente, surgimos todos ao mesmo tempo. Não éramos tão “angry” nem éramos todos “men”, mas surgimos na contramão da ditadura militar e da censura. Na contramão do silêncio. Surgimos pós-Plínio Marcos, que era e é o máximo. Surgimos com peças em que colocamos a política como pano de fundo ou nem isso. Colocamos a repressão dentro da alma das pessoas, fizemos personagens fechadas, enclausuradas dentro de um local e dentro de si.

As peças foram um puta de um sucesso, de público, de crítica. Viramos uns ícones, todos famosos. E aí cada um seguiu seu caminho. A Leilah escreveu mais. A Isabel não, ficou doente. Eu fui fazer publicidade no Rio, fiquei uns três anos sem escrever e depois peguei de novo. Cada um tem uma história, mas fomos uma linha divisória. A gente foi o ar puro naquela hora.