Em “O Duelo”, delicadezas da gente comezinha, mediana

Por Nelson de Sá

De Aury Porto, em referência ao post “Em ‘O Duelo’, o redemoinho de Aury Porto, Pascoal da Conceição e Camila Pitanga“:

Nelson, no programa da peça, que espero que vc tenha recebido, há um texto no qual exponho como essa novela de Tchékhov entrou em nossas vidas. E foi só muito indiretamente por causa de “O Idiota”.

O motivo primeiro da escolha foi exatamente o duelo, que é ideológico pelo lado do Von Koren mas que é totalmente sem sentido e sem motivo se olharmos através de Laiévski. A única fala de Laiévski sobre Von Koren em toda a novela está na peça e ela é de reconhecimento do valor e importância do seu adversário e de sua própria mesquinhez.

Von Koren diz a certa altura que “um duelo aristocrático não se diferencia em nada de uma briga de botequim”. Poderíamos nos referir também a uma “briga de trânsito”. E é isso. Há irritação, depressão, ansiedade, impaciência, intolerância na convivência… Ninguém é grande nessa história. Todos são medianos, mas Tchékhov revela em vários pequenos momentos delicadezas difíceis de se ver na nossa vida de classe média.

Você vai me dizer, mas isso há em personagens de obras dramáticas dele e essa situações também. E eu te pergunto: porque vamos elocubrar sobre o que não escolhemos se há uma escolha feita?

Nós estudamos e fizemos um espetáculo com quatro atos de quatro peças de Tchékhov. E eu encenaria/encenarei “As Três Irmãs” certamente. Mas agora o nosso interesse recai sobre essa gente comezinha que vive desterrada, mas que não são grandes exilados da história como os nossos exilados da década de 60/70. Que, aliás, passado aquele tempo quente, se mostram, vez ou outra, também medianos nos seus pensamentos e atos como os nossos russos no Cáucaso.

Quanto aos personagens românticos, quero te lembrar que durante oito anos em que estive no Teatro Oficina (2000 a 2009) não fiz um romântico sequer. Em “Os Bandidos” de Schiller, por exemplo, o romântico era o personagem de Marcelo Drummond.

Porém, devo dizer que amo os românticos porque eles são redutos de sinceridade nos nossos tempos cínicos.