“Forrobodó”, quando o teatro musicado descobriu as personagens populares

Por Nelson de Sá

Muito tempo atrás, fiz um curso de interpretação ao lado do também aspirante a ator Pedro Paulo Bogossian. No fim, ele compôs uma peça musicada para apresentarmos, uns poucos alunos. É tudo que recordo. Voltei a falar com Pedro Paulo dias atrás para uma reportagem sobre composição no teatro musical brasileiro.

Ele fez de tudo, nestes últimos 20 e tantos anos. Compôs para “Você Vai Ver o que Você Vai Ver”, com um iniciante Charles Möeller, hoje rei do musical no Rio. Ganhou Shell pela composição em “Filhos do Brasil”. Fez direção musical, arranjos, banda no palco, tudo o que envolva música & teatro. E recentemente escreveu uma dissertação, “A Música no Teatro: O Sentido do Jogo na Comédia Musical”.

O estudo permitiu concluir que “desde lá atrás nosso teatro musical existe, mas é esse musical brasileiro: calcado na paródia, que é o nosso espírito; que vem das operetas, do popular”. Lá atrás estão Chiquinha Gonzaga e outros, quase todos do Rio. “Aí fui achar esse teatro musicado brasileiro, até com nova denominação.”

Como o próprio teatro, o musical é manifestação relativamente recente em São Paulo, mas nunca deixou os palcos cariocas, desde o século 19. Que o diga Tim Rescala, quase todo ano com uma peça nova, há décadas. Está em cartaz agora com “Meu Amigo Bobby”, mas preferi ver “Forrobodó“, criado por Chiquinha Gonzaga e pelos também lendários Luiz Peixoto e Carlos Bettencourt há cem anos.

O musical foi remontado no Sesc Ginástico, em parte, para celebrar o centenário. André Paes Leme, reconhecido por encenar clássicos brasileiros do gênero, como “Capital Federal”, de Artur Azevedo, e o mesmo “Forrobodó”, está de volta na direção, mas agora em moldura contemporânea, sem figurinos evocando 1912.

Não é o espetáculo favorito da cidade, depois de ter sido questionado pelo pouco de crítica que resta no Rio. Mas para quem só conhecia de ler e ouvir algumas canções, como eu, é uma festa. “Forrobodó” fez história com a “novidade”, como relata a biografia da compositora, de tomar por cenário “um baile popular no bairro da Cidade Nova”, com seus “personagens típicos” e “linguajar característico”.

A Cidade Nova era na zona do Mangue. A biógrafa Edinha Diniz resume, no programa, que “desde o começo o empresário Paschoal Segreto manifestara preconceito com o tema, um baile em bairro proletário”. Separou só uma semana em seu teatro, na praça Tiradentes, mas o sucesso popular levou a 1.500 apresentações.

É uma burleta, farsa cômica, muito engraçada, com grandes quadros de coro ou, na nova encenação, roda de samba. E com elenco de estrelas negras, a começar de Flávio Bauraqui como Escandanhas, Juliana Alves como Sá Zeferina e Érico Brás como Guarda Noturno, que é raríssimo ver nos palcos musicais, ao menos de São Paulo. (Por aqui, à exceção de “Rei Leão”, o gênero ainda está em 1912.)

Mais Edinha Diniz, no programa: “No momento em que se redescobre o gosto do público pelo musical e a pesquisa da linguagem se faz necessária e urgente, para (re)encontrar o caminho do teatro musicado brasileiro, a remontagem de ‘Forrobodó’ mostra-se oportuna e capaz de dar uma contribuição decisiva à evolução do gênero”.

PS – “Forrobodó” encerra temporada no próximo domingo, dia 8, no Rio. Não tem nada previsto, mas bem que poderia vir para São Paulo.