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Blog de teatro

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Nelson de Sá e Lenise Pinheiro abordam montagens de peças, ensaios, vivências e experimentos

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Chico Buarque & Stephen Sondheim

Por Nelson de Sá

Na edição de hoje, com foto de Cláudio Botelho, Ed Motta e Charles Möeller que Lenise tirou no belo teatro Net Tereza Rachel, tento levantar “o que fazer” para resgatar o teatro musical de duas fórmulas fáceis e empobrecedoras tanto para o palco como para o público: as franquias da Broadway e as biografias com hits de música popular.

Em resumo, para a maioria dos entrevistados, é preciso encontrar e apostar em compositores brasileiros, na tradição de Chico Buarque ou Chiquinha Gonzaga _esta do clássico “Forrobodó”, de 1912, cuja remontagem aproveitamos para ver no Sesc Ginástico e sobre o qual devo escrever, mais para a frente.

Das entrevistas, a mais surpreendente foi de Ed Motta, compositor de “7” e, como se vê abaixo, numa seleção maior de suas respostas, um fã de Sondheim:

O Ed Harris, saxofonista famoso, tem uma música, “Theme in Search of a Movie”. Eu tinha uma série de canções e pequenos prelúdios, vinhetas, “in search of a musical”, à procura de um musical. Foi assim que a gente [Motta, Botelho e Möeller] se conheceu. Fui assistir “Company”, a versão que eles fizeram, porque era fissurado em Stephen Sondheim. Quando vi eu falei, “vou tomar coragem e perguntar se eles têm interesse em escutar isso”. Porque tenho uma relação forte com musical, principalmente na parte de música mesmo. Eu tenho uma coleção muito grande de discos de musicais, milhares.

Conheci essa cultura quando morei nos Estados Unidos [nos anos 90]. Foi lá que comecei a ouvir Jule Styne, Sondheim, [Leonard] Bernstein, todos esses grandes compositores. Richard Rodgers, tudo isso. Comecei a ter acesso a esse material e à forma de composição, porque fazer musical é uma coisa que tem uma metodologia _as introduções, os “verses”, como eles chamam, aí vem o tema, tem o recitativo no meio. Enfim, tem um formato, assim como no jazz. É claro que você pode subverter. Em “Marry Me a Little”, Sondheim subverteu completamente as balisas estéticas esperadas num musical. Mas eu quis obedecer, em algum momento, essa estética.

Lembro que mostrei para eles e eles ficaram super-excitados. Não imaginavam que eu, que vinha de um tipo de música absolutamente diferente, tinha feito aqueles canções no piano. E que tinha tantas músicas. Me lembro que o Cláudio começou a fazer algumas letras, três ou quatro, e em seguida o Charles veio com o roteiro. Veio tudo aquilo junto. Foi, para mim, um prêmio, antes de qualquer coisa, por ter o aval deles dois, que são caras do idioma realmente, que conhecem e fazem isso com grande eloquência.

Até hoje tenho músicas guardadas, nesse estilo. Antes eram gravadores. Agora guardo no iPhone, separo dentro das pastas do iTunes. Daí, vamos supor, posso fazer um tema instrumental meio jazz, posso fazer um tema pop, uma balada _e guardo. Tenho um monte dessas coisas, com esse cacoete de musical.

Fiz um disco que se chamava “Aystelum”, em que coloquei um pot-pourri que era uma prévia do “7”, já com as letras do Cláudio. Uma das coisas que mais adorei foi que é um disco de free jazz, mas, no meio disso que seria ligado a uma cultura afro-centrista, entra uma coisa da cultura nova-iorquino-judaica, com um contraste que eu nem imaginava. Eu só falava, “quero colocar isso junto porque faz parte da minha vida”. Em seguida a gente conseguiu fazer o musical e tudo mais. Foi uma experiência única para mim. Eu já tinha feito muito trilha para cinema, mas não tinha trabalhado de forma assim tão rígida, mas rígida no bom sentido, de organização, de pragmatismo, de como realizar.

Quando a gente já tinha todos os temas prontos, eles falavam, “olha, daqui a dois dias tem que fazer uma abertura”. “Mas não estava prevista.” “Não, faz uma abertura.” Eu voltava para casa, cara, saía do ensaio… Eu sou obsessivo, perfeccionista. Eu ouvi todas as “overtures” possíveis. Falava, “meu Deus do céu, minha Nossa Senhora”. Ao mesmo tempo, queria que tivesse uma relação, mas não queria fazer uma “overture” citando as outras. Aí trabalhei, trabalhei, trabalhei e apareceu. Tinha hora que demorava mais, tinha hora que vinha.

Quem me falou do Sondheim foi Guinga. O Guinga é fissurado no Sondheim. Ele um dia chegou para mim, antes de eu ir para os Estados Unidos estudar com um cara de jazz , e falou assim: “Você tem de conhecer Stephen Sondheim”. Porque ele ia à casa do Chico Buarque e falou que o Chico tinha um livro do Sondheim no meio da mesa, não sei o quê. Aí, por causa disso, fui atrás.

Inicialmente estranhei e depois, como tudo na minha vida, virou uma obsessão. Aí eu tinha de saber quem era Vernon Duke, quem era Cy Coleman. Eu comprava os discos todos. Acho que ainda existe essa loja, Colony, bem ali perto dos teatros. Eu me lembro de entrar e o primeiro disco que comprei foi “Side by Side”, de coleção da obra [de Sondheim]. Fiquei maravilhado com aquele negócio dos dois pianos. Quando você usa dois, tem um batimento muito interessante, em sobreposição.

A primeira música que ouvi foi “Too Many Mornings” [de “Follies”, de Sondheim]. Falei, “putz, adorei isso”. Mas me lembro que custei a compreender e a degustar o canto mais puxado para o lírico. [canta] Depois fiquei louco por esse negócio, mas louco total. Tanto que adoraria cantar num musical, porque sei imitar esses caras com perfeição. [risos] As minhas músicas mesmo, quando eu passava depois para os atores, era sempre imitando um cara de musical inglês. [canta] Com esse timbre característico. Fiquei fissurado nisso. Para mim, se pudesse viver disso, seria maravilhoso. Gosto muito mais de ficar no laboratório de criação do que viajando, fazendo show. Gosto de fazer show, mas gosto mais de ficar aqui no teatro.

[A música brasileira] não foi meu parâmetro. Meu parâmetro era a música da Broadway, realmente. É o mesmo tratamento que tenho com a minha música. Eu me sinto um cidadão do planeta Terra. Na minha música, nunca tive essa pretensão, “ah, vou representar, vou fazer algo com uma leitura mais brasileira”. Não sou dessa linha fale-da-sua-aldeia-fale-do-mundo. Acho que tem de falar do mundo para falar do mundo. Aliás, não acho nada. É só porque é o que eu gosto. E a minha referência está na música norte-americana, completamente. No jazz e no pop da Califórnia e nos musicais de Nova York.

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