Façam tudo como se fosse pela primeira vez. Wooster, “for heaven’s sake”, não

Por Nelson de Sá

O Festival de Edimburgo abre na próxima sexta-feira com o “Hamlet” encenado pelo Wooster Group. E não é só. Tem também “Emperor Jones” em vídeo, do mesmo Wooster, que é a atração do festival. O primeiro estreou há mais cinco anos. O segundo, há quase vinte.

Não que ambos não sejam criações significativas, de uma companhia também significativa. Mas entende-se por que, apesar de ser um momento em que “o mundo inteiro parece estar partindo para Edimburgo“, alguns estejam anunciando que não aguentam mais.

The Wooster Group, for heaven’s sake!… Please, not again”, escreveu Rupert Christiansen no “Telegraph”, algo como “pelo amor de Deus, de novo, não”. Ele não vai para a Escócia. Mark Shenton, que escreve para “Stage”, “Sunday Express”, “Playbill” e outros, também não.

Vi “Hamlet” alguns meses atrás no Sesc Pompéia (aqui, nas fotos de Lenise) e de início fui tomado pelo maravilhamento e pela esperança que sempre acompanham as apresentações do Wooster. Como contou Fabiana Gugli depois de ver a montagem em 2008, era “a metalinguagem da metalinguagem da metalinguagem”.

Nas palavras da atriz, era um outro Wooster, que voltava a ser inovador. Em 1995, quando vi “Emperor Jones” na Performing Garage, o teatro do grupo em Nova York, foi exatamente o que pensei. Um outro Wooster, sempre um outro Wooster, mas também sempre o mesmo.

No caso de “Hamlet”, trata-se de um golpe de teatro repisado por horas: a peça encenada exatamente como havia sido em 1964, com Richard Burton, para um filme que foi apresentado então nos cinemas _e cujas cenas são projetadas no palco, agora, e repetidas gesto a gesto.

Sob o efeito da metalinguagem sem fim, os solilóquios e diálogos de Shakespeare se perdiam na sensação geral de torpor. Também se perdia a interpretação de Scott Shepperd para o príncipe _que tinha tantos traços próprios, ainda que copiada e colada de Richard Burton.

Registre-se que não é problema só de Edimburgo _ou do Sesc, por aqui. Há tempos que o festival da “nova onda” na Brooklyn Academy of Music parece dar voltas em torno de Robert Lepage, Robert Wilson e outros poucos. Mês que vem, sua atração será uma peça que Lepage estreou há quatro anos.

O que leva ao outro festival de Edimburgo, o Fringe, que abriu na sexta-feira passada com um “stand up” ou discurso mesmo de Mark Ravenhill, autor de “Shopping and Fucking” _que nos últimos tempos vem escrevendo peças curtas, experimentos e até uma série de TV, “Vicious”.

O “Guardian” publicou o discurso na íntegra. Ravenhill faz um alerta aos jovens artistas que foram até a Escócia: com a crise financeira global iniciada em 2008 e o encolhimento do orçamento estatal britânico, já é possível vislumbrar “o fim de todo investimento público em cultura“.

Ele pede um plano B, qualquer coisa, diz que pode ser até bom para tirar a criação do torpor atual, mas sobretudo: “Não procurem mentores décadas mais velhos que vocês. Pessoas como eu. Ignorem-nos. Não procurem por modelos. Inventem pelo caminho. Façam tudo como se pela primeira vez”.