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Nelson de Sá e Lenise Pinheiro abordam montagens de peças, ensaios, vivências e experimentos

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Sarah Kane, nossa contemporânea

Por Nelson de Sá

Até dias atrás, havia duas encenações de “4.48 Psicose” em cartaz em São Paulo, simultaneamente, na Cultura Inglesa de Pinheiros e no CIT-Ecum, na Consolação. O que é que isso diz sobre Sarah Kane e a peça, uma década e meia depois do suicídio que se seguiu à finalização do texto? Certamente fala bastante sobre o Brasil.

Em nenhum momento se viu ou se vê, por aqui, o questionamento de que SK foi alvo na própria Inglaterra. Coisas como a insinuação, por outro autor inglês, de que teria se matado para assegurar seu lugar na história do teatro. (É uma declaração de desamor que caberia bem na segundo personagem de “4.48”, o médico, ou o Outro, ou a outra face _cínica_ da própria primeira personagem).

No Brasil nunca foi problema: suicídio, por aqui, como para o teatro, é praticamente um direito humano. Por aqui, também é como se SK jamais tivesse entrado na sempre prevista fase de refluxo pós-morte de todo autor, para só depois retornar ao palco, com o carimbo de aprovação pelo tempo, não mais por seus contemporâneos apenas.

Mas também em Londres começam a surgir, pontualmente, os sinais de um reencontro com a autora e até com “4.48”, peça que é sempre mantida, por lá, um grau abaixo de “Blasted”, a primeira de SK: foram as montagens estrangeiras, sobretudo da Europa continental, que preservaram a memória de “4.48” no palco, mais recentemente com a versão do polonês Grzegorz Jarzyna.

A novidade londrina foi a montagem do grupo Fourth Money, no ano passado, jogando em cena nada menos que 21 jovens atrizes. Ainda que tenha passado quase despercebida pelos jornais, “Guardian” inclusive, restringindo-se à repercussão on-line, acabou estabelecendo um marco em torno da companhia, hoje referência off-West End.

[Sarah Kane também vem renascendo pelo paralelo com Damien Hirst, na arte como choque dos anos 90 _embora o choque de ambos, visto em retrospecto, esteja hoje bastante diluído.]

Assisti às duas montagens paulistanas. Na Cultura Inglesa, onde está de volta ao cartaz, Laerte Mello, tradutor e agora também diretor, talvez o maior entusiasta de SK no Brasil, alcançou o que uma década atrás me parecia impossível: tornar o texto _com suas cenas de números e outras_ compreensível, acessível para quem não esteja mergulhado no ambiente singular da autora.

Com cinco atrizes e três atores, ele estilhaçou, a exemplo do Fourth Money e de outros ao redor do mundo, a divisão costumeira em duas personagens. Sem o esforço de vestir num diálogo realista as imagens desencontradas que SK colocou no papel, a peça ganha em clareza, esclarecimento _e não o oposto, como seria de esperar.

A montagem no Ecum é anterior, está para fazer dez anos, e foi dirigida pelo paranaense Marcos Damasceno seguindo estritamente a divisão paciente-médico. Concentra-se na atriz Rosana Stavis, que garante dramaticidade à personagem em todas as cenas. É ela quem permite viajar nos versos de SK, inclusive na imagem final, existencialmente tão dolorosa. Na tradução de Laerte:

“Fui eu mesma que eu nunca conheci, aquela que tem a face colada na parte inferior da minha mente.”

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