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Nelson de Sá e Lenise Pinheiro abordam montagens de peças, ensaios, vivências e experimentos

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Em meio à desesperança, grandes atrizes dançam em “Lúnassa”

Por Lenise Pinheiro

Nelson de Sá:

Embora se passe na Irlanda dos anos 30 e tenha sido escrita na Irlanda dos anos 90, “Dançando em Lúnassa” pode ser vista como uma peça bastante adequada para o que vivem os brasileiros, hoje.

Os protestos das últimas semanas, mesmo tendo por estopim o transporte público, o preço da passagem, ecoam mais amplamente a deterioração da economia e da própria vida dos brasileiros _enfim, a carestia e a consequente perda de esperança.

É disso que trata “Dançando em Lúnassa”. Uma família enfrenta a deterioração das estruturas econômicas e sociais _depois da crise de 1929 e de seus reflexos mundo fora_ e se desintegra.

Entremeada de contrastes de alegria, quando alguns ou todos saem dançando pelo palco, é uma peça extremamente dolorosa, com personagens jogadas no limite da tensão em episódios _aparentemente_ os mais cotidianos.

Não é de estranhar que atrizes como Denise Weinberg, Clara Carvalho e Sandra Corveloni abracem tais papéis. Antes delas, também Meryl Streep, no cinema.

São cinco irmãs, muito diferentes, da mais feliz e brincalhona à mais carrancuda e focada, nesta família que se dissolve aos poucos. Elas seriam inspiradas na mãe e nas tias do autor, Brian Fiel.

As irmãs, todas solteiras, moram juntas na inventada Ballybeg ou “pequena cidade”, cenário de outros textos também de repercussão mundial do mesmo dramaturgo irlandês.

Durante três semanas de 1936, logo depois da Lughnasadh, uma festa que marca o início da colheita, elas são pressionadas por dificuldades de todo lado _e só têm algum alívio nas músicas do rádio que ocupa a cozinha onde passam quase todo o tempo.

Um irmão padre reaparece doente depois de décadas. É a grande referência das cinco, por ter tratado de leprosos em Uganda. Mas não é mais padre, ao menos parece ter abandonado ou ter sido abandonado pela igreja.

Ato contínuo, a irmã que serve de esteio financeiro da família perde seu emprego na paróquia _e logo o tricô de duas outras, que ajudavam, também se vai, com a abertura de uma fábrica têxtil na cidade.

“Dançando em Lúnassa” é pontuada pelas memórias do filho de uma das irmãs, que entra em cena para relatar e esfriar um pouco a dramaticidade, inclusive no final especialmente triste, sobre o que aconteceu com elas.

Cada uma em sua personagem distinta _além das citadas, Fernanda Viacava e Isadora Ferrite_ as cinco atrizes compõem um quadro familiar muito integrado e de forte impacto emocional.

Não consigo destacar uma atriz ou um ator, dos três também presentes no palco, nesta encenação tão sem arestas, integrada e de desenvolvimento suave.

Melhor apontar o comando que o tradutor e diretor Domingos Nunez tem de “Dançando em Lúnassa”. Pelo resultado em cena, que não é musical só pelas canções que saem do rádio, ele é como um regente.

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