Lígia Cortez e Ondina Clais Castilho, damas do mar

Por Lenise Pinheiro

Nelson de Sá:

Lígia Cortez é mais realista, mais naturalista, mais Ibsen. Ela segue os diálogos do dramaturgo norueguês, os interpreta.

Já Ondina Clais Castilho é mais crispada, mais simbólica, antinaturalista. Em suma, menos Ibsen e mais, de certa maneira, Bob Wilson.

Mas é só parte da verdade.

As cenas e mesmo as palavras fluem por Ondina como se ela estivesse no estado perfeito para o papel. É natural, à sua maneira.

Lígia, não. Ela como que tira os diálogos do cenário de Bob Wilson e os transporta de volta ao universo de Ibsen. Soa antinatural, na cena.

Mas também é só parte da verdade.

Na silhueta tantas vezes emoldurada, em contra-luz, por Bob Wilson, Lígia é longilínea, quase oriental.

Já Ondina é nórdica como a cenografia.

Mais importante, nos instantes de paralisação física, com esgares, caras e bocas, marcados antes por música do que qualquer outra coisa, Ondina segue no personagem.

Lígia, não. Ela se transforma e enrijece, boca aberta, como num filme de horror japonês. É fantasmagórica, sobrenatural.

Escrevo essas impressões para me contrapor à reação dominante, pelo que pude perceber, de que está em cartaz uma disputa entre Lígia e Ondina. E de que Ondina venceu.

Em dias alternados, as duas atrizes dividem a personagem-título de “A Dama do Mar”, Ellida, em decisão inesperada do diretor.

Ele próprio, Bob Wilson, anuncia, abrindo o programa da peça: “O naturalismo de Ibsen? Eu não o amo”.

O diretor não tinha por que escolher uma atriz naturalista e outra antinaturalista. Acredito que tenha enxergado algo além das duas classificações.

Acompanho as duas atrizes no palco há tempos, desde quando ambas aprendiam com _e ensinavam_ Antunes Filho.

São diferentes, mas nada que se possa simplificar na fórmula centenária que opunha Sarah Bernhardt e Eleonora Duse em torno do mesmo Ibsen e que virou clichê de crítica.

Paulo Francis, quando começou como crítico no “Diário Carioca”, adaptou a comparação, que é sempre a mesma, para Cacilda Becker e Maria Della Costa.

Melhor escapar de confronto tão repisado e apreciar ambas, como fiz, nas duas apresentações que vi, no Sesc.

De quebra, em trilha completamente singular, “participação especial”, Bete Coelho se integra com facilidade tanto com uma como com outra protagonista.

É de fato a irmã mais nova, brincalhona, manhosa, fiteira, que antes acompanha e ironiza os acontecimentos do que participa deles.

É um alívio, para o peso de tudo mais, no palco do Sesc Pinheiros, a começar da encenação.

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O problema de “A Dama do Mar” é, como vem acontecendo regularmente, o próprio Bob Wilson.

Da última vez em que trouxe Ibsen a São Paulo, “Quando Nós Mortos Acordamos”, duas décadas atrás no Teatro Municipal, já era um massacre tedioso da forma contra tudo mais.

Pouco se aproveitava no espetáculo de som único, como um ruído sem fim. Nem Joel Grey se distinguia naquilo.

O citado Antunes Filho, que nos anos 70 foi um admirador de Bob Wilson, criticou muito aquele Ibsen.

Depois relatou, a mim e Marcelo Rubens Paiva, que o diretor americano até brigou com ele. “Queria me matar, mas era uma droga aquilo, o xerox do xerox do xerox, um ‘ismo’ de si mesmo.”

O xerox continua, na encenação de “A Dama do Mar”, aliás uma franquia de duas décadas de Wilson.

Mas o fato é que Lígia, Ondina e Bete sobrevivem à cena, mantêm o teatro vivo.

Talvez venha daí a divisão do papel principal e o espaço aberto à participação especial: Bob Wilson enxergou nas atrizes o que sua encenação já não tinha mais.

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Volto a escrever no Cacilda Blog de Teatro após uma pausa de vários meses, em outra área. Peço a paciência de todos, até a readaptação.