Ato de Comunhão

Por Nelson de Sá

Em cartaz até o último fim de semana no Sesc Belenzinho, “Ato de Comunhão” é uma estranha peça que provoca reação física, mais do que intelectual, de raciocínio, ou emocional.

É a maneira como o autor argentino Lautaro Vilo construiu a narrativa, tirada de fatos, de notícia, mas é sobretudo a maneira como ela é apresentada em cena, na mise-en-scène de Gilberto Gawronski.

Em muitos momentos, revira o estômago. Mas é mais do que enjôo, embora pelo menos em uma apresentação, nesses anos de montagem, ela tenha levado um espectador a realmente vomitar.

Outros seis entraram em convulsão, semelhantes a ataques de epilepsia, uma descarga elétrica neurológica. O que aciona essa reação, creio eu, é sua materialidade. É como se ela conseguisse dar carne, estrutura física, às palavras.

Desde o princípio, talvez desde antes de entrar na sala, a sensação é de estranheza. É o fascínio com o tema do canibalismo, que não é sequer contemporâneo, vem de séculos, milênios.

E aqui ele não se restringe à abordagem metafórica da antropofagia, dada por Oswald de Andrade. O mais interessante na peça é até o fato de evitar o sentido alegórico, romper com a metáfora, para se aproximar da carne.

É o que se pode imaginar como o ideal do teatro, que não é literatura. O que está na frente do espectador é um ator, um corpo.

Em suas oficinas no Royal Court, Sarah Kane, autora muito influenciada por Artaud, realizava um exercício de dramaturgia que procurava trazer para o ambiente material o que é, originalmente, forma literária.

Ela fazia cada aspirante a autor deixar o contorno de seu corpo num papel, no chão, como numa cena de crime, e escrever mensagens para as partes. Uma mensagem para sua mão, outra para sua cabeça, seus pés etc.

O que acontece na peça de Vilo e Gawronski é isso, de certa maneira, com apoio de algumas imagens bem definidas, como uma cadeira de barbeiro que remete ao Sweeney Todd de Sondheim, e principalmente projeções.

Gawronski aproxima do próprio corpo do espectador o que antes era horror distante, uma notícia perdida nos meios de comunicação, coisa de dez anos atrás, sobre “o canibal de Rotemburgo”.

Daí as reações. Convulsão e eventual ânsia de vomitar não são as únicas. O que se percebe, na plateia, é uma intensa irritação, uma sensação negativa difusa.

Noutro dia, um amigo foi ver “Ato de Comunhão” e entrou em conflito com outro espectador, durante a apresentação, por absolutamente nada, o esbarrão que um deu na cadeira do outro.

Foi um transbordamento da irracionalidade que é causada pelos sentimentos que afloram da própria peça, das palavras.

PS – Leia também Dirceu Alves Jr. e Barbara Heliodora