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Nelson de Sá e Lenise Pinheiro abordam montagens de peças, ensaios, vivências e experimentos

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Skyfall/O Olho Azul da Falecida/Isso É o que Ela Pensa

Por Nelson de Sá

Se ainda havia dúvida, 2012 confirma que a projeção de poder que resta ao antigo Império Britânico se dá pelo espetáculo ou, mais precisamente, pelo teatro.

O arrasa-quarteirão “Skyfall” é um filme realizado por um diretor teatral, Sam Mendes, com uma grande atriz também de palco, Judi Dench, e um ator, Daniel Craig, que vi pela primeira vez há duas décadas no papel de Joe, o mórmon homossexual de “Angels in America”, no National Theater, em Londres. Na mesma época, Mendes dirigiu Dench num “Jardim das Cerejeiras” abertamente cômico que moldou meu gosto teatral.

“Skyfall”, dos três, é uma história de queda, de derrotas, erros, decadência. Tira a máscara do que já era decadente e ainda posava como o oposto, nestes 50 anos de 007. E compõe bem com outro espetáculo do Império em fim de linha, os Jogos de Londres.

Abertura e encerramento da Olimpíada, dirigidos por Danny Boyle e Stephen Daldry, ex-diretores-artísticos do Royal Court Theater, evidenciaram que persiste na Inglaterra o poder cultural, “soft power”, como se diz. Não mais militar, político, econômico. É o fascínio espetacular que ainda causa em nós.

Mas é curioso, ao mesmo tempo, como tal projeção de poder cultural se dá de forma ainda empolada, reverencial, no palco brasileiro.

Nem Joe Orton, de certa maneira a alma do teatro londrino nos anos 60, escapa. “O Olho Azul da Falecida”, uma farsa em grande restrita ao ambiente britânico da época, transposta agora para o palco do teatro Geo, mais parece a enésima temporada de “A Ratoeira”, a conhecida armadilha para turistas em Londres.

O hilariante Orton perde a graça, da maneira como foi encenado. As interpretações vestem figurinos que parecem cobertos de pó. Não são maus atores, pelo contrário, a começar de Genézio de Barros. Mas é o que existe de mais próximo do que foi classificado, tempos atrás, como teatrão. E Orton deveria ser o oposto disso.

“Isso É o que Ela Pensa”, escrita por Alan Ayckbourn em 1985, ganhou roupagem de maior qualificação, mas aí o problema estava mais no próprio texto.

Em cartaz até o final de outubro no Viga, mostrou interpretações fortes, no limite entre comédia e tragédia. Denise Weinberg, em especial, confirmou uma vez mais ser capaz de sustentar uma personagem com sua voz e seu corpo, no que é quase um monólogo na mente da protagonista, Susan.

A peça marca, supostamente, o início da segunda e melhor fase de Ayckbourn, até então visto como comediógrafo leve, antes de se desenvolver num período no National. Mas carrega ainda os traços de farsa, humor menor, que mitiga e evita os conflitos. Sobretudo se comparada a trabalhos de tema semelhante _a perda da realidade_ na mesma Londres, contemporânea e posterior.

Na verdade, vistos em conjunto, tanto em Orton como em Ayckbourn sobrevive ainda um questionamento _com deferência, quase temor_ do establishment britânico, algo que desaparece com Mendes, Daldry, Boyle, antes no palco, agora no cinema. Como nenhuma geração anterior, eles sabem que a arte está no poder, em seu país. É único que resta.

PS – Boyle e Daldry estão em campanha neste momento para convencer o governo conservador a não cortar as verbas diretas para teatro _e argumentam com o “soft power” de eventos como o que ambos realizaram.

É o inverso do que aconteceu há dez anos no Brasil, quando o Arte contra a Barbárie enfrentou os cortes ininterruptos no investimento direto e fez passar a Lei do Fomento. No Reino Unido, o governo quer trocar os recursos diretos por um vago incentivo à filantropia privada, na linha da Lei Rouanet.

Leia também, sobre “Skyfall”, o texto de Luis Fernando Veríssimo. Sobre “Isso É o que Ela Pensa”, Dirceu Alves Jr.

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