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Nelson de Sá e Lenise Pinheiro abordam montagens de peças, ensaios, vivências e experimentos

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Kiara Sasso & Liza Minelli

Por Nelson de Sá

As Organizações Globo abraçaram o teatro musical, no bom e no mau sentido. De um lado, compraram o passe de Moeller & Botelho e vão montar na Broadway, com ambos e o produtor Stephen Byrd, “Orfeu Negro”, baseado no filme francês, por sua vez adaptado da peça “Orfeu da Conceição”, de Vinícius de Moraes, com música de Tom Jobim.

Mas também vão montar “Dancin’Days”, remetendo à novela global de mesmo nome, com músicas das Frenéticas. A Globo, que no teatro se chama Geo, age assim: a cultura que incorpora e passa a explorar não é bem do Brasil, mas da Globo. É um organismo que vive de se auto-reproduzir, pasteurizando até o que traz de fora.

Por exemplo, para todos os efeitos a grande canção de Liza Minelli é “New York, New York” e sua grande personagem é Francine, do filme musical de mesmo título, dirigido por Martin Scorsese. Mas quando a atriz americana esteve no Brasil, dias atrás, a Globo correu com Cláudia Raia para uma conversa num programa também, é claro, da Globo.

LM foi apresentada como criadora de Sally, como a eterna Sally, personagem de CR em “Cabaret”. Mas não é. Quem originou o papel na Broadway foi Jill Haworth; no West End, foi Judi Dench. No caso, a distorção histórica servia para ajudar a vender o musical de uma estrela da casa _embora CR, registre-se, não se limite à Globo.

A questão é que, se era para levar alguém até Liza Minelli, o nome seria Kiara Sasso, que vive Francine em “New York, New York” até o próximo domingo, no teatro Sérgio Cardoso. Ela não só interpreta a canção símbolo de LM, mas é ela a estrela maior do teatro musical brasileiro, nesta fase recente. E KS deve seu nome, integralmente, ao palco.

(Novamente, nada contra Cláudia Raia ou, para lembrar outro nome, Marisa Orth, talentos múltiplos que se desenvolveram antes de mais nada no palco, mas cuja celebridade se deve à televisão. A questão aqui é tentar resistir, ainda um pouco mais, ao avassalamento do teatro pela sociedade do espetáculo, em sua versão corporativa.)

Dito isso, é preciso registrar que “New York, New York” não é montagem das melhores _ao contrário, admita-se, de “Cabaret”, no teatro Procópio Ferreira. Kiara Sasso tem bons momentos, sobretudo com a canção-título, no final, mas é quase como se ela não se integrasse ao espetáculo, entrasse em cena com números à parte, desligados da trama.

Juan Alba é, curiosamente, o motor do espetáculo, costurando com empatia e bom humor os pedaços disparatados da encenação _e interpretando com inusitada segurança. Bem menos dramático que o filme, o musical, que ganha sua primeira versão de palco, é veículo perfeito para o “galã”, tipo que Alba veste com naturalidade.

Mas nem ele consegue dar norte à coisa. O espetáculo tem grandes quadros de dança encenados pelo especialista José Possi Neto, com coreografias de Anselmo Zolla e bailarinas como Talita Souza e Simone Camargo, mas eles parecem formar apresentação à parte, como a voz de Kiara Sasso. Falta narrativa, o que é estranho, para musical.

Para piorar, o Sérgio Cardoso, depois de mais uma reforma e sob controle de “organização social”, reabriu com os problemas de sempre ou mais. Na apresentação, o ar condicionado quebrou, obrigando o elenco a se desculpar, e só um dos quatro elevadores funcionava. Apesar de lotado, dias depois foi anunciado o fim da temporada.

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