Cacilda

Blog de teatro

 -

Nelson de Sá e Lenise Pinheiro abordam montagens de peças, ensaios, vivências e experimentos

PERFIL COMPLETO

Publicidade
Publicidade

Júlia Ianina

Por Nelson de Sá

Conheci Julia Ianina em uma leitura no Teatro-Escola Célia Helena. Ela havia sido indicada, muito jovem, quase adolescente, por Lígia Cortez. A montagem que eu queria fazer acabou não dando certo, mas ficou evidente que estava diante de uma atriz potencialmente especial, capaz de deixar marca por muito tempo.

Ao longo dos anos, vi peças em que ela atuava como “A Invenção de Loren”, “Os Amigos dos Amigos”. Agora, numa só sexta-feira, assisti à peça “Rabbit” no teatro Eva Herz e ao filme “Cara ou Coroa”, em circuito.

Pelo que li no press release do filme, Felipe Hirsch, que a dirigiu dois anos atrás no teatro, falou então ter “certeza de que será uma das grandes”. Tanto no palco como na tela, ela está a um passo de confirmar a previsão do diretor _e a minha própria impressão da jovem atriz.

É de uma empatia extrema, com um rosto que desarma, pela beleza e pela ingenuidade, por sua franqueza. Também não desperdiça diálogos e é capaz, como fica claro em “Rabbit”, de ser implacável, cortante como exigem as “one-liners”, as frases mais ferinas.

Falta uma coisa, porém. Ianina precisa de uma personagem que rompa de vez com a boa moça que seu semblante parece pedir. É como se estivesse presa num único papel, um tipo característico como é comum nas produções de Hollywood ou nas telenovelas.

No caso de “Cara ou Coroa”, é uma estudante que se arrisca quase por acaso, que não questiona nem a ditadura militar nem a guerrilha urbana, que ama tanto o avô general como o namorado dramaturgo e esquerdista. É inocência demais, neutralidade demais.

“Rabbit” é mais comprometedora por ser uma peça _e uma personagem_ escolhida por ela mesma. Foi Ianina quem encontrou, no primeiro texto da inglesa Nina Raine, um bom veículo para a Cia. Delas, com vários papéis femininos e alguma discussão sobre a mulher hoje.

Tem também um personagem perfeito para Nelson Baskerville, de pai, ele que segue a carreira do grupo de atrizes desde o princípio. A trama mistura o aniversário de Bella (feita por Ianina e, às quintas, por Paula Weinfeld), reunindo amigas e ex-namorados, e o momento em que seu pai está à morte no hospital.

O programa da peça destaca uma frase (“tenho 29 anos, nunca mais vou ter 28 de novo, nunca mais vou ter oito de novo”), mas há muitas outras, várias delas cômicas, no que soa por vezes como um Neil Simon de saias. São diálogos que poderiam estar num “sitcom” americano.

Mas como teatro é muito pouco.

Não por acaso, Nina Raine reagiu aos paralelos com Sarah Kane, quando esteve em São Paulo e assistiu aos ensaios, argumentando que a antecessora, cinco anos mais velha, conseguia ser universal. Raine não consegue _embora tenha até começado como assistente de Stephen Daldry, que descobriu Kane.

Toda a recente geração de Raine, que surgiu no Royal Court londrino lutando contra a sombra não só de Kane, mas de Caryl Churchill, parece fadada a um certo realismo, que força nas palavras, na violência verbal, mas se mantém limitado a conflitos domésticos.

Miriam Gillinson, crítica da “Time Out” londrina, já cobrou publicamente a falta de ambição formal, o pensar pequeno, o teatro exageradamente “clean” de autoras como Raine, Laura Wade e Anya Reiss, esta de “Sem Pensar”, montada aqui por Denise Fraga. De fato, falta pensar grande.

PS – Leia a crítica de Inácio Araújo para “Cara ou Coroa“.

Blogs da Folha

Categorias

Publicidade
Publicidade
Publicidade