O Bom Canário/O Homem-Travesseiro

Por Nelson de Sá

Foi Hilton Viana quem falou para eu assistir “O Bom Canário”. Ele foi um dos primeiros críticos teatrais que conheci, ao chegar a São Paulo. Publicava então no “Diário Popular”, título que nem existe mais. Aos 81 anos e depois de um tempo no hospital, ainda vai sempre ao teatro, persistente. E ele estava certo.

Em “O Bom Canário”, que acaba de ter a temporada ampliada no teatro Eva Herz, o texto de Zach Helm permite uma interpretação (literalmente) enérgica de Flávia Zillo, bela e marcante atriz. A produção vem do Rio, pouco ou nada conheço dos envolvidos, mas Helm é o roteirista da engenhora comédia hollywoodiana “Mais Estranho que a Ficção”.

E “O Bom Canário” ecoou mundialmente, também uns cinco anos atrás, com uma encenação dirigida por John Malkovich em Paris, com a brasileira Cristiana Reali no mesmo papel de Zillo, Annie _escritora que vincula seu talento à dependência química. Como o filme, também a peça de Helm corre em torno da própria criação, de sua escritura.

Helm sumiu desde então, até onde sei. A notícia mais recente envolveu um espetáculo que andou arriscando como ator/entrevistador, seguindo o modelo que Spalding Gray criou, de diálogo improvisado com espectadores diferentes por apresentação, “Interviewing the Audience”. De fato, o tom e os temas de sua peça remetem muito a Gray.

Helm, como dramaturgo/roteirista, é um “natural”, parece ter nascido para construir personagens e diálogos. São precisos, fortes dramática e comicamente, mas é o desespero de seus protagonistas que salta à boca de cena. Annie não escreve sem inspiração artificial, de drogas que a deixam, não alterada, mas à beira do precipício.

É uma tragédia anunciada, mas que não permite racionalização fácil _e que Flávia Zillo reproduz com uma estranheza que vai muito além das palavras, passando por seu corpo. Como Gray, Helm retrata uma dissonância intermitente entre mente e corpo, ou entre o universo da criação e o universo físico, carnal. É uma comédia, mas causa dor.

Na minha maneira de ver, Martin McDonagh, autor de “The Pillowman – O Homem -Travesseiro”, que cumpriu curta temporada no Viga, é o exato oposto. É também um “natural”, também um roteirista de Hollywood, seus diálogos são precisos e cortantes, até seu tema nesta peça o aproxima de Zach Helm: o ato de criar, escrever, contar histórias.

Mas ele não tem o que dizer _apesar da garra do jovem elenco. A fábula de violência com que McDonagh envolve o tema soa hoje, quase duas décadas depois do teatro “in-yer-face” e da “Pulp Fiction” de Quentin Tarantino, ainda mais vazia. No caso, ele afirma a arte pela arte, sem eco moral ou social, egocentrada e autojustificada em seu talento.

McDonagh está neste momento escrevendo uma peça para Bob Wilson. Não é difícil compreender o que atraiu Wilson a um artista tão igual.