A Família Addams

Por Nelson de Sá

De Möeller & Botelho, agora sob contrato exclusivo com a Geo, da Globo, a Miguell Falabella, vem aí uma safra de musicais brasileiros, não mais versões da Broadway e do West End. Mas a maior prova de que o gênero se estabeleceu de vez no Brasil é que Marisa Orth e Wellington Nogueira estrearam afinal no teatro Abril, na produção da T4F para “A Família Addams“.

Sempre me pareceu tão evidente que a atriz era talhada para o teatro musical que eu não conseguia compreender porque estava demorando tanto. Não mais. Ela levou seu carisma, conhecido desde os primeiros passos em “Fica Comigo Esta Noite”, com Carlos Moreno, e na banda Luni, no Madame Satã, para a Mortícia da comédia musical.

É claro que não dança como a lendária Bebe Neuwirth, que criou o papel na Broadway, mas dá conta dos movimentos com precisão _e com suas longas pernas de vedete. Também responde com profissionalismo na voz. Porém é mesmo no humor que Marisa Orth fascina, sejam crianças, velhos, todo mundo, na plateia lotada da matinê que vi, no segundo ou terceiro fim de semana do espetáculo.

É sua vitória no teatro musical, finalmente.

Também é a vitória de Wellington Nogueira. Foram mais de duas décadas desde que ele voltou de Nova York, da Broadway, e tentou abrir o caminho para os musicais por aqui. Fez dois, se bem me lembro, de câmera, retornando ao cartaz de tempos em tempos, por persistência. Estabeleceu os Doutores da Alegria, virou empreendedor. Agora, enfim, o chamaram.

Seu personagem é de trama paralela, Mal Beineke, o pai do namorado de Wandinha, a filha de Mortícia, mas ele prende a atenção com uma grandeza, uma envolvente satisfação, que acaba sendo marcante no espetáculo. Seus dois quadros musicais evidenciam o artista completo, preparado, ainda que quase estreante ou até por isso. Em cena, cabelos brancos, meia idade, brilha como um adolescente.

Nem Marisa nem Wellington chegam porém a concorrer com Daniel Boaventura, como Gomez, e Laura Lobo, como Wandinha, em profissionalismo. Veteranos do gênero no Brasil, os dois sabem modular nos menores detalhes a comédia e o drama, os saltos que o gênero musical dá entre um e outro, na vertente americana. Marisa e Wellington têm muito a ganhar, no convívio com ambos.

Quanto ao musical propriamente, “A Família Addams” não tem canções memoráveis e seu norte moral é frágil, lugar comum, mas não é o desastre que o “New York Times” pintou, ajudando a limitar sua temporada em Nova York. É até bastante rico em seus personagens e conflitos. O bastante para que possam brilhar os grandes atores que a produção conseguiu reunir no Brasil.