“Finishing the Hat”, de Stephen Sondheim

Por Nelson de Sá

A temporada é dos musicais, não tem mais volta agora. Aproveito então para tratar de Stephen Sondheim, o maior compositor e letrista vivo da Broadway, mais de 80 anos, criador de “Company”, “Gypsy”, “A Little Night Music”, “Sweeney Todd”.

Ele lançou “Finishing the Hat” há pouco mais de um ano e a sequência, “Look, I Made a Hat”, em dezembro. É uma coletânea comentada de suas letras, mas é muito mais, reúne de “princípios” a “heresias”, de próprio punho. A edição é tão complexa e rica que dificilmente terá versão no Brasil, embora devesse ser obrigatório nas escolas de musicais por aqui, a começar da OperÁria.

É também uma autobiografia e, mais que isso, um meio de passar adiante o que aprendeu do ofício. Estou no meio do segundo volume. Começo pelo primeiro, que retrata seus musicais de “Saturday Night”, de 1954, a “Merrily We Roll Along”, de 1981.

Em ambos os volumes, o destaque inicial é para aquilo que ele conheceu através de Oscar Hammerstein II, seu grande mestre, e de “meus mais de 60 anos praticando o ofício” do teatro musical, além do que aprendeu com “o pequeno grande livro” de Strunk e White _também uma referência central para a escrita de jornalismo_ “The Elements of Style”.

Em suma, seus três príncipios na criação da letra de uma música, “para serem escritos em pedra”:

Conteúdo Dita a Forma
Menos É Mais
Deus Está nos Detalhes

E tudo, completa, “a serviço da Clareza, sem o que nada mais importa”.

Hammerstein, que Sondheim conheceu aos 11 e foi seu “pai adotivo” e mentor pelas duas décadas seguintes, é a influência que mais o angustia, página após página. Foi quem o chamou para ajudar em “Allegro”, aos 17, e depois lhe deu como exercício criar quatro musicais, adaptados de peças, uma boa, outra ruim, de um romance e, por fim, original.

Sondheim cumpriu tudo. Além da proximidade, sua motivação era simples: Hammerstein fez com Richard Rodgers o musical que revolucionou a Broadway em 1943, “Oklahoma!”, com narrativa e personagens complexos. Em seu perfil de Hammerstein no livro, é carinhosamente cruel, apontando defeitos como redundância e as “imagens ornitológicas”.

“Finishing the Hat” segue ordem cronológica, detalhando como foi a criação de cada espetáculo. De “West Side Story”, por exemplo, diz que não é sobre preconceito racial, mas sobre teatro musical, a mistura de música, letras, dança. Lamenta que a peça o tenha deixado com o rótulo de letrista, mas diz que aprendeu nele o valor da colaboração, no caso, Leonard Bernstein.

De “Gypsy”, diz ter sido o espetáculo em que se tornou adulto, com a personagem de Rose, subtexto etc. Mas é só em “Company”, já em 1970, que ele enfrenta e afasta, embora não afirme expressamente, a sombra de Hammerstein. É seu grande musical, aquele em que rompe com a narrativa linear e vence na Broadway com uma forma diversa de “Oklahoma!”.

A história de Robert, o protagonista, “não se passa ao longo de um período de tempo, mas num instante em sua mente”. E foi o primeiro mergulho de Sondheim, segundo ele mesmo, “em ironia ao longo de toda a noite” de apresentação, o que definiu seu estilo. Era um “musical observacional, apresentado de uma distância seca, do início ao fim”.

Sondheim não simpatiza com Brecht, como deixa mais claro no segundo volume, mas no caso de “Company” admite que as canções, todas compostas e escritas por ele, foram “quase brechtianas”. Porém resiste e afirma que, na verdade, é “um romântico”, não um irônico. Lamenta que a partir daí sua “marca de identificação” passou a ser “frio”, o que o persegue até hoje.

Para quem também gosta, uma das melhores passagens de “Finishing the Hat” é sobre a audição de Pamela Myers para “Company”:

Após uma dúzia de boas e pouco excitantes possibilidades, fomos confrontados com uma estudante do Conservatório de Cincinnati, sem experiência de palco, que entrou a passos largos e soltou “Shy” e nos fez rir sem parar. Depois seguiu com “Little Green Apples” e nos fez chorar. Sabíamos que tínhamos uma “descoberta” nas mãos.

Mas a personagem de Marta não servia para ela. O diretor Harold Prince se voltou para o libretista George Furth e pediu que reescrevesse o papel. E se voltou para Sondheim e pediu uma música só para ela. “Era o momento que eu tinha visto em tantos filmes de Hollywood sobre show business, o momento que eu esperava, em que alguém sai do coro e se torna uma estrela.”

A interpretação de Myers para “Another Hundred People”, na primeira montagem, é lendária e pode ser encontrada no YouTube.

Há muito mais no volume, como os ataques que Sondheim faz aos letristas ingleses Noel Coward e W.S. Gilbert _e aos críticos, dizendo que “a triste verdade é que os musicais são a única forma de arte pública que é criticada por ignoramuses”, por “iletrados” em música.

Ele também deixa transparecer que “Sweeney Todd” é seu musical favorito, por ser “um filme para o palco”. De Sondheim, lembrando que a música que dominou sua infância foi de cinema, não palco: “Eu gostava de teatro, mas eu amava o cinema”.

PS – Assim que acabar de ler, escrevo aqui sobre “Look, I Made a Hat”.