Magdalena

Por nelsonsa

Em 1903, aos 16 anos, Villa-Lobos já tocava violoncelo no teatro Recreio, no Rio, para operetas e outros musicais populares, conta Vasco Mariz em sua biografia do compositor carioca. E criava polcas, valsinhas, “enfim, música popular”. Oito anos depois, estava na companhia de operetas de Luís Moreira, tio-avô de Chico Buarque, viajando o Brasil.

Mais oito anos e criou “Zoé”, com libreto de Renato Vianna baseado em sua peça “Salomé”, sobre uma mulata que morre por overdose de morfina. “Bailado Infernal”, tirada do segundo ato, foi apresentada na Semana de Arte Moderna. Em seguida, fundou com Vianna a Cia. Batalha da Quimera, criou a partituta e regeu as apresentações da peça “A Última Encarnação do Fausto” no teatro São Pedro, hoje João Caetano, no Rio de 1922.

Muito mudou depois daí, mas não é difícil entender por que ele abraçou o convite de dois produtores da Broadway para compor o musical “Magdalena”, passadas duas décadas, para o teatro Ziegfeld. Mal sabia no que estava se metendo.

O argumento já havia sido delineado pelos produtores, que só queriam um pot-pourri de sua música, como haviam feito antes com Grieg. Queriam algo nos trópicos e imaginaram um cenário no rio Magdalena, na Colômbia, com índios explorados, um general opressor, sua amante francesa e um casal de jovens românticos.

Como foi possível comprovar na estreia da primeira encenação em São Paulo, na última quarta-feira no teatro Municipal, a narrativa chega a ser insuportável. Seu final, com a vitória da Igreja Católica sobre a rebeldia do jovem romântico, é até ofensivo, ao menos para mim. (Lembra “Santa Joana dos Matadouros”, de Bertolt Brecht, mas aqui com a vitória da fé sobre a razão, de Deus sobre o homem.)

Em 1948, foi essa também a reação do crítico Brooks Atkinson no “New York Times”, descrevendo a história com adjetivos como “ininteligível” e “antiquada”, sobretudo depois da mudança por que passou a Broadway em 1943, com “Oklahoma!”.

Embora dizendo ser “impossível ter uma ideia” da partitura, escreve que ela é “estimulante” quando desvencilhada dos “apavorantes” libreto e letras. Destaca as “belas” músicas religiosas e, em particular, “The Broken Pianolita” no primeiro ato e “A Spanish Waltz” no segundo, além dos quadros cômicos de Tereza, a amante francesa, “Food for Thought” e “Pièce de Resistance”.

Esta última foi descrita como “estupenda” na crítica não assinada do “New York Herald-Tribune” _supostamente escrita por Walter Kerr, que depois substituiria Atkinson no “NYT”.

Novamente, como foi possível comprovar na apresentação de quarta, Tereza é de longe a personagem mais instigante de “Magdalena”, com seus quadros lembrando não uma francesa, mas alguém tirado da boemia carioca que Villa-Lobos conhecia bem. Permitiu a Luciana Bueno os maiores aplausos da estreia, em cena aberta.

Vale registrar que George Jean Nathan _o crítico favorito de Paulo Francis_ foi ainda mais elogioso da música de “Magdalena”, escrevendo também em 1948:

“Para aqueles cuja instrução tenha ido um pouco além de Count Basie, da canção comum e da parada de sucessos do rádio, os experimentos do brasileiro em cor, ritmo, harmonia, modulação e instrumentação são fascinantes e trazem o grande alívio das canções populares, que inspiram em algumas pessoas o bater dos pés e em seus vizinhos o balançar da cabeça.”

Vendo o espetáculo, tem-se a sensação, como escreveu a “New Yorker” em 1987, que seria melhor encenar só os quadros musicais, descartando diálogos e narrativa. A revista pediu também que algum PhD batesse ponto a ponto a partitura, para esclarecer as dúvidas sobre a “colcha de retalhos” de temas anteriores, como Vasco Mariz descreve o musical.

Ao que consta, Villa-Lobos se negou a permitir o pot-pourri que os produtores queriam, trancou-se num hotel e saiu em um mês com 321 páginas de composição, mas não se sabe o que restou delas, no palco. Irineu Franco Perpétuo, em parte ao menos, responde agora ao pedido da “New Yorker” no programa de “Magdalena”:

“No começo e no final, ouvimos um motivo coral das ‘Bachianas Brasileiras nº 4’. Logo se sucedem vários temas escritos para piano solo: trechos de ‘Ibericarabe’, ‘Impressões Seresteiras’, ‘Valsa da Dor’, ‘Festa no Sertão’, ‘Kankukus’ e ‘Na Corda da Viola’, também música vocal, como as ‘Modinhas e Canções’ e trechos de ‘Izath’. Um autor maduro revisitando obras ou um truque fácil para ganhar dinheiro? Richard Rodgers, depois de ver ‘Magdalena’, vaticinou: ‘É a partitura musical mais importante desde Porgy and Bess’.”

Rodgers é o compositor da citada “Oklahoma!”, cujo libreto e letras criados por Oscar Hammerstein, com personagens definidos e desenvolvimento dramático, revolucionaram a Broadway e todo o teatro musical americano e ocidental.

Quanto ao dinheiro, registre-se que Villa-Lobos, quando da estreia de “Magdalena”, havia acabado de passar por cirurgia no Memorial Hospital de Nova York, que permitiu que vivesse mais uma década. O tratamento, de um câncer, foi pago em parte pelo governo brasileiro e em parte pelos US$ 10 mil que recebeu dos dois produtores da Broadway.

PS – É a primeira vez em SP, com produção original do francês Théâtre du Châtelet, mas “Magdalena” já recebeu uma versão brasileira há cerca de uma década, com a mesma tradução de Claudio Botelho, da dupla carioca Möeller & Botelho, como relatou João Batista Natali, aqui.